Autoconfiança – Um relato

A importância de confiar em si mesmo

De alguma forma, todos sabemos como a autoconfiança é importante, porém, entendo que temos uma ideia muito superficial do que ela representa e apenas nos damos conta de seu papel quando a perdemos. Portanto, para aprendermos algo sobre o tema, não podemos falar de um mundo ordenado e fantasioso, onde as coisas dão sempre certo. Vamos abordar a autoconfiança no caótico mundo real, uma realidade nua e crua.

Para isso, utilizaremos uma experiência pessoal para, junto com alguns insights de especialistas, refletirmos um pouco mais sobre a importância de confiar em si mesmo.

Meu relato de abalo da autoconfiança começou há alguns anos atrás, em uma situação bem específica. Estava em um bom momento de minha carreira, acumulando grandes conquistas e bons feedbacks, quando um episódio desencadeou um longo período de questionamentos sobre meus valores como profissional.

Foi em uma reunião, na qual toda a equipe de gestores deveria apresentar seu planejamento para o próximo ano. Os leitores do blog sabem que sempre tive uma orientação voltada à inovação, então, decidi apresentar os projetos e ideias que fugiam do senso comum. Acreditei que seria um bom momento de apresentar algumas ideias, já que todos estavam reunidos, e poderíamos trocar insights uns com os outros. Mas, como já devem estar imaginando, não foi o que ocorreu.

Fui constantemente interrompido com duras críticas pelo executivo de nossa área. Ouvi coisas do tipo “Você não é pago para ter ideias” ou “Ter ideias é muito prazeroso, mas eu quero resultado”. Eu entendi que havia uma clara orientação à execução por parte do executivo, o que me parecia sensato de certa forma, mas a maneira com que tudo aconteceu me impactou por algum tempo.

A situação parece corriqueira, afinal, quem nunca recebeu críticas em uma reunião? Mas, a maneira como encarei aquele episódio abalou consideravelmente minha confiança. Consigo identificar dois motivos para isso ter me atingido tanto.

  • Primeiro, tudo foi dito em alto e bom som, ou seja, todos os meus colegas e gestores ouviram os gritos, críticas e ameaças. Parecia que todos aqueles feedbacks positivos que eu recebia no dia a dia estavam ameaçados, como se eu perdesse, de uma hora para outra, todo o respeito que havia conquistado com tanto trabalho.
  • Segundo, o que foi questionado seria uma das características que sempre considerei como um dos meus principais diferenciais. Não que eu passasse a duvidar da minha criatividade, mas passei a questionar se ela era, realmente, relevante.

Os meses seguintes foram bem estressantes. Tive muita ansiedade, pois acreditava que aquilo iria se repetir a qualquer momento. Então, me escondia, omitia minhas considerações e ideias, para evitar represálias. Passei a dar maior importância para qualquer comentário negativo, como se fossem críticas diretas a mim, estava sempre superestimando as consequências das coisas. Me sentia deslocado, como se aquele não fosse meu lugar, como se todos olhassem para mim e lembrassem daquele dia, vivia com essa angústia constante.

Apesar de saber que não se tratava de algo mais sério, como depressão ou algo do tipo, sabia, de alguma forma, que estava inserido em um ciclo muito perigoso. Meus pensamentos estavam sempre lembrando daquele momento, fazendo com que se tornasse muito mais importante do que realmente havia sido.

Mas, entender isso de forma racional não foi suficiente. Só consegui fugir desse turbilhão de pensamentos quando tomei algumas atitudes, baseadas em muita reflexão e estudo, que pretendo levar para toda minha vida:

  • Não ignorei as sensações e emoções que surgiam, mas tentava observá-las e aprender com elas.
  • Comecei a meditar e a estudar o Mindfulness.
  • Passei a refletir toda manhã sobre meu dia anterior, me concentrando naquilo que aconteceu de melhor.
  • Procurei um terapeuta que me ajudasse a adquirir mais autoconhecimento.
  • Parei de tomar cafeína.
  • Passei a direcionar meus pensamentos para o momento presente, evitando a ansiedade do futuro e o estresse do passado.

Talvez, isoladamente, nada disso teria algum efeito, talvez alguns sejam placebos. Pode ser ainda, que apenas o fato de tomar atitudes para contornar a situação tenha sido o suficiente. Mas, o fato é que as “neuras” pareciam reduzir aos poucos, até que em dado momento, de um instante a outro, elas se tornaram pequenas demais para me preocuparem e minha autoconfiança foi restabelecida.

Mas o que aconteceu durante esse tempo? Como um evento relativamente comum ganhou tanta importância? Qual a relação de tudo isso com minha autoconfiança?  Assim como essas, muitas outras perguntas ficaram e, certamente, não conseguirei respostas para todas elas. No post de hoje, vou compartilhar algumas que acredito ter encontrado.

O único fato que posso admitir, com certeza, é que a autoconfiança tem muito mais influência na minha vida do que imaginava.

Importância da autoconfiança

No post Autoconhecimento na Prática entendemos um pouco sobre os efeitos de uma autoconfiança saudável. Mas, não se trata de uma discussão exclusiva de nossa sociedade atual, observamos alguns exemplos durante a história que ressaltam sua importância.

O filósofo judeu Asher Ginzberg, (pseudônimo Ahad Ha’am) afirmou, em 1890, que embora veneremos a sabedoria, a autoconfiança importa mais: “em qualquer situação difícil ou perigosa, os sábios são aqueles que se contém, pesando as vantagens e desvantagens de qualquer ação. Enquanto isso (e para grande desaprovação dos sábios) é o autoconfiante que toma a dianteira e, com frequência, ganha o dia.”

Segundo ele, a autoconfiança só é justificada quando as dificuldades de um empreendimento são totalmente compreendidas e avaliadas, porém, a insensatez individual pode, muitas vezes, produzir resultado, simplesmente por causa da autoconfiança que a acompanha.

“Se queremos que nossas ações tragam resultados, pode realmente ser o caso de precisarmos desenvolver e utilizar o tipo de autoconfiança que ocasionalmente acompanha os atos de insensatez. Ao mesmo tempo, devemos sempre moderar essa autoconfiança com sabedoria, ou faltará aos nossos atos uma verdadeira eficácia no mundo.”

Asher Ginzberg – Ahad Ha’am

O historiador Frank McLynn escreveu um livro sobre os grandes guerreiros da história, chamado Heróis e Vilões. Desde Espártaco até Napoleão, McLynn estudou como funcionava a mente dessas pessoas notáveis:

“Tentar penetrar nas mentes dos grandes líderes da história é algo que pode ser feito só aos poucos e com muita paciência. Mas se me pedissem para apontar um pré-requisito importante para todos os guerreiros de sucesso, responderia que é a sua capacidade extraordinária para lidar com o estresse simultâneo e acumulado. Os grandes capitães tinham de lidar com conflitos da sociedade e do mundo exterior, com outras pessoas e, frequentemente, consigo mesmos“.

Como vemos o mundo?

Lidar com os conflitos do mundo exterior e principalmente consigo mesmo, não é exclusividade de grandes guerreiros. Todos nós precisamos lidar com a realidade através dos próprios olhos. Assim, entendemos o mundo de forma limitada e podemos interpretar as coisas diferentemente do que elas realmente são.

Segundo os autores de Atenção Plena, Mark Williams e Danny Penman, nunca vemos uma cena em detalhes, mas fazemos inferências com base nos “fatos” que nos são dados. A mente refina as informações, julgando-as, comparando-as com experiências do passado e atribuindo-lhes significado.

Como resultado, um mesmo acontecimento pode ser completamente diferente para duas pessoas e se distanciar de qualquer “realidade” objetiva: não vemos o mundo como ele é, mas como nós somos.

“Vivemos fazendo adivinhações sobre o mundo, mas não nos damos conta disso. A maneira como o interpretamos faz uma diferença enorme na forma como reagimos. A narração mental do mundo é como um boato. Pode ser verdadeira, mais ou menos verdadeira ou completamente falsa.

O problema é que a mente costuma achar difícil detectar a diferença entre o fato e ficção depois que começou a construir um modelo mental do mundo. Por essa razão, os boatos podem ser incrivelmente poderosos e sabotar não apenas a mente dos indivíduos, mas de sociedades inteiras.

Mark Williams e Danny Penman

Ainda segundo Williams e Penman, existe um perigo (dentre outros) nessa dinâmica que é do interesse desse post. A mente está a todo tempo coletando fragmentos de informações e tentando juntá-las em um quadro significativo. Faz isso com frequência, retrocedendo ao passado e vendo se o presente está começando a se desenrolar da mesma forma. É assim que atribuímos sentido ao mundo.

O problema é que essa memória genérica tende a sintetizar o passado como uma verdade eterna. Assim, uma vez que eu tenha interpretado a “conduta” de um executivo como um “ataque pessoal”, dificilmente retornaria aos detalhes reais da situação e pensaria nas possibilidades de haver outras interpretações.

Essa é uma tendência que os autores chamam de supergeneralização. “Tudo o que consegue lembrar depois é de mais um caso de pessoas lhe atacando. Seu mundo perde a cor, tornando-se preto ou branco – vencer ou perder.

A tirania do pensamento

A maneira como interpretamos o mundo pode gerar um ciclo muito nocivo, devido à nossa capacidade de imaginação. Como vimos no post As Pedras no Caminho… Parte 3, diferentemente dos outros animais, nós temos a “incrível” proeza de transformar uma ideia meramente imaginária em ameaça real. 

Para o cérebro, fantasia e realidade são, quimicamente, a mesma coisa. Então, no meu caso, quando passei a pensar demais em algo que interpretei de maneira ruim, acabei criando em minha mente medos reais para ameaças inexistentes. Assim, a prioridade número um passa a ser evitar essas ameaças a todo momento, o que retroalimenta o ciclo, resultando em mais consequências.

Em um experimento realizado por psicólogos da Universidade de Maryland, publicado em 2001, pediram a dois grupos de estudantes que resolvessem um jogo de labirinto, daqueles que fazíamos em revistas quando éramos crianças, ajudando um rato a sair de sua toca sem que lápis saísse do papel.

Mas havia uma pequena diferença entre eles. Nos labirintos do primeiro grupo, apenas as saídas corretas eram ilustradas com o queijo, o que seria uma recompensa. No caso do segundo grupo, as saídas erradas eram ilustradas com uma coruja em posição de ataque, enquanto as saídas corretas estavam em branco.

Em resumo, um grupo estava em busca da recompensa, enquanto o outro fugia da ameaça. Os labirintos eram simples e os estudantes completaram a tarefa em cerca de dois minutos. Mas os efeitos subsequentes foram bem diferentes.

Após completarem o labirinto, os estudantes foram submetidos a um segundo teste, aparentemente desvinculado do primeiro, que media seus níveis de criatividade. Ao fazerem o teste, aqueles que evitaram a coruja tiveram resultados 50% piores do que aqueles que ajudaram o camundongo a achar o queijo.

Concluiu-se que evitar o perigo “reduzia” as opções na mente dos estudantes. Ela desencadeou as vias de “aversão” da mente deles, infundindo-lhes um medo persistente e uma maior sensação de vigilância e cuidado. Esse estado mental enfraquecia a criatividade e reduzia a flexibilidade.

Por outro lado, os estudantes que ajudaram o camundongo a achar o queijo se tornaram abertos a novas experiências, foram mais brincalhões e despreocupados, menos cautelosos e mais contentes em experimentar. Em suma, a experiência abriu-lhes a mente.

Convenções sociais

Outro ponto importante para mim foi ter a certeza de que me preocupo demais em como as pessoas me veem. Nesse período de reflexão, pensei muito em um seguinte cenário: Imagine que você seja a única pessoa viva no mundo, tente entender como seria seu comportamento, seus sonhos, suas atividades do dia a dia, suas preocupações

Claro que estaríamos apenas especulando, mas dá para ter uma ideia do quanto as outras pessoas influenciam as nossas vidas. Se fôssemos os únicos no mundo, talvez nem roupa usássemos, a não ser para alguma proteção, não buscaríamos experiências mirabolantes, afinal, não teríamos ninguém para compartilhar.

Será que buscaríamos nos aperfeiçoar em alguma atividade produtiva ou apenas faríamos o básico para sobreviver e passaríamos o resto do dia surfando, por exemplo?

Enfim, tudo seria diferente. Desde a simples maneira de nos vestirmos (ou não) até todo o restante que fizermos, pensarmos e sonharmos. Hoje, tudo depende dos outros, vivemos pelos outros. Essa inquietação me fez pensar bastante sobre até que ponto ter a aprovação ou não dos meus colegas, por exemplo, seria algo relevante.

Claro que ser influenciado pelos outros não é um problema, a sociedade evoluiu dessa forma, mas não pode ser apenas isso. Devemos ter nossa individualidade, nossas crenças inabaláveis, fugindo da tirania dos deveres e fazer aquilo que realmente acreditamos. Sucesso, dinheiro ou reconhecimento são apenas convenções sociais que podem limitar nosso próprio significado e servirem como fontes de frustração.

Para Mark Williams e Danny Penman, é comum ouvir histórias como a do médico que odeia medicina, mas que pratica a profissão porque seus pais lhe disseram que ganharia respeito e aprovação deles e da sociedade. A influência dos outros sobre os nossos desejos e sobre como nos definimos pode ser muito complexa.

“Podemos criar profundas raízes de ressentimento dentro de nós quando agimos conforme os desejos de outrem, e não os nossos. Se nossas ações não sofrem influência externa, sentimo-nos mais autênticos, com maior controle sobre o próprio destino e mais satisfeitos com os resultados.”

Para Mark Williams e Danny Penman

Isso tudo me fez ver a vida com outros olhos, com menos cobrança. Talvez até a busca por um propósito de vida seja uma convenção social que colocaram na nossa cabeça (assim como o sucesso). Afinal, passaríamos a vida em busca de algo e deixaríamos de viver a vida que já temos. Acredito que o que precisamos é de um significado para viver a vida de maneira plena, e o sentido da vida para mim, definitivamente, é o conhecimento, não o aplauso.

“O propósito da existência não é chegar a algum lugar, porque a existência é menos uma jornada em direção a um ponto final e mais um processo contínuo de crescimento e descoberta, que só tem fim quando morremos”.

Carl Rogers

Confesso que me alegrei bastante quando encontrei essa frase de Carl Rogers. Fugir das convenções sociais pode ser algo muito delicado e, intrinsecamente, solitário. Steve Jobs encontrou uma maneira:

“Lembrar que logo estarei morto é a ferramenta mais poderosa que encontrei para me ajudar a fazer as grandes escolhas na vida, porque quase tudo – todas as expectativas externas, todo orgulho, todo medo de constrangimento ou de fracasso – simplesmente desaparece diante da morte, deixando apenas o que de fato importa”

Steve Jobs

A vida plena

Antigamente, muitos dos tratamentos psicológicos baseavam-se na ideia de que as doenças mentais eram um mal patológico que precisava ser curado. O psicólogo americano, que já foi indicado ao Nobel da Paz, Carl Rogers adotou uma abordagem diferente, acreditava que as filosofias correntes eram estruturadas e rígidas demais para dar conta de algo tão dinâmico quanto a experiência humana.

Rogers partiu do princípio de que é absurdo ver o bem-estar mental como um estado específico e fixo: “a boa saúde mental não se obtém de repente, ao final de uma série de etapas“. Ele não acreditava que um indivíduo existisse em estado defeituoso, que demandasse conserto para viver em melhores condições, e preferia enxergar a experiência humana, bem como nossas mentes e ambiente, como algo vivo, em crescimento; a vida existe na experiência de cada momento.

Rogers usou a expressão viver “a vida plena” para se referir ao conjunto de características, atitudes e comportamentos manifestados pelas pessoas totalmente imersas no fluxo da vida.” 

  • Ser totalmente aberto a experiências.
  • Viver o momento presente.
  • Confiar em si mesmo.
  • Assumir responsabilidade pelas próprias escolhas.
  • Tratar a si e aos outros com consideração positiva incondicional.

Nossos preconceitos sobre o funcionamento do mundo, de como ele deveria ser e do nosso papel dentro dele, traçam os limites do nosso próprio universo e da nossa capacidade de permanecermos presentes e abertos a experiências. Vivendo uma vida plena e mantendo-nos disponíveis para as situações, adotamos uma maneira de viver, sem nos sentir aprisionados e estagnados.

Para Rogers, conforme um indivíduo vai se tornando mais aberto, percebe que está, ao mesmo tempo, desenvolvendo a sua capacidade de confiar em si mesmo e em seus instintos e, assim, passa a ficar mais seguro de sua competência para tomar decisões. Ou seja, viver “a vida plena” significa conquistar autoconfiança.

Incluir esses comportamentos e atitudes em minha vida, certamente, foi algo definitivo para que eu conseguisse superar esse ciclo e recuperar minha confiança.

“O indivíduo pode confiar em si mesmo, não porque é infalível, mas porque está totalmente aberto às consequências dos seus atos e pode corrigi-los, caso se mostrem insatisfatórios.”

Carl Rogers

Para finalizar

Depois de tudo que discutimos, de todas as lições que aprendemos, ainda existe uma que foi a maior que todas elas: não menospreze as preocupações dos outros. Por mais que o motivo de outrem possa parecer fútil, a dor dele é legítima.

Embora devamos buscar legitimidade em nossas decisões, a confiança em si mesmo passa pela coragem de se colocar, verdadeiramente, no lugar do outro. A causa fim da autoconfiança, portanto, pode ser a empatia:

“Um ser humano é parte do todo chamado universo, uma parte limitada no tempo e espaço. Ele experimenta a si mesmo, seus pensamentos e seus sentimentos como algo separado do resto, um tipo de ilusão de ótica da consciência. Essa ilusão é uma prisão para nós, restringindo-nos a nossos desejos pessoais e à afeição por algumas poucas pessoas ao nosso redor. 

Nossa tarefa deve ser nos libertarmos dessa prisão, aumentando nosso círculo de compaixão para abraçar todas as criaturas vivas e a natureza inteira em toda a sua beleza. Ninguém é capaz de alcançar isso completamente, mas o esforço para tal realização é, em si, uma parte da libertação e uma base para a segurança interior.

Albert Einstein

Referências: Heróis e Vilões, Frank McLynn, 2007. Atenção plena – Mindfulness, Mark Williams e Danny Penman, 2011. O Livro da Psicologia, Diversos autores, 2012. O Livro da Filosofia, Diversos Autores, 2011

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