Novas Lições de Carreira

Alguns aprendizados coletados no caminho

Em 2015, começamos uma discussão essencial para os objetivos desse blog. O post Reflexões sobre Carreira trouxe os insights mais importantes sobre gestão de carreira que tivera até então.

Já em outro texto, abordamos o que muda de verdade quando iniciamos a carreira executiva. Após investigar alguns conceitos, como, por exemplo, Serenidade, Pragmatismo e Húbris, concluímos que a principal batalha da carreira executiva acontece em outro campo, separado do mundo exterior. 

Trata-se de uma luta introspectiva e pessoal, uma batalha contra você mesmo.

Hoje vamos avançar nessa jornada, agregando as lições aprendidas nos últimos anos, quando passei por um período de maturação em cargo executivo. Lições que tornam a gestão de carreira um tema cada vez mais complexo e interessante.

Soft Skills X Hard Skills 

Não poderia começar de outra maneira. Afinal, temos discutido constantemente as habilidades que mais precisamos desenvolver para lidar com as incertezas do futuro.

No início deste ano, Jack Ma, CEO da Alibaba, também fez esse alerta no Fórum Econômico Mundial. Segundo ele, “tudo que nós aprendemos deveria ser diferente, diferente das máquinas“. 

Para ele, a maneira como aprendemos e ensinamos é a mesma dos últimos 200 anos, uma dinâmica baseada unicamente em transmitir conhecimento.

Dessa forma, em pouco tempo, não seremos mais aptos a competir com os sofisticados algoritmos, o poder de computação e a capacidade de armazenamento dos sistema informatizados.

Devemos, portanto, aprender o que a máquina não é capaz de copiar, olhar mais para as habilidades comportamentais.

Assim, os soft skills ganham cada vez mais importância.

Para o bilionário chinês, valores, pensamento independente, julgamento, trabalho em equipe e empatia são os atributos que nos tornam únicos e nos mantém competitivos (e por que não, úteis).

No blog, mapeamos alguns soft skills mais práticos, porém, tão importantes quanto os citados por Jack Ma: Curiosidade, Adaptabilidade, Learnability, Criatividade e Utilização de Dados.

Seja qual for a linha de pensamento que você mais acredita, vale rever suas estratégias de educação e desenvolver essas habilidades.

Em alguns casos, focar apenas em aprender as mais recentes técnicas para fazer o seu trabalho, pode não ser o melhor caminho a médio e longo prazo…

…a não ser que queira “ir pra briga” com as máquinas, em vez de fazê-las trabalharem pra você.

Continuar aprendendo

Já faz algum tempo que nossa educação profissional deixou de se resumir à escola e faculdade.

São poucas as pessoas que atuam na mesma área que estudaram, seja por falta de oportunidades, por descobrirem vocação em outra área ou, simplesmente, porque algumas profissões perdem relevância com o tempo, enquanto outras opções surgem.

Assim, nos vemos sedentos por atualização. 

Alguns satisfazem a sua sede, outros a ignoram, e essa é uma diferença crucial na carreira das pessoas. Em um mundo que não para de mudar, não consigo encontrar cenários em que parar de estudar seja um bom negócio.

Outro ponto importante é não perder as lições que a própria vida nos traz, de bandeja. Basta ficarmos atentos, entender os picos e vales de nossa trajetória e saber aprender com ambos. 

Não deveríamos classificar uma experiência como boa ou ruim baseada no grau de conforto ou desconforto que ela nos trouxe, mas, sim, no quanto ela nos ensinou.

No final das contas, tudo é uma questão de aprendizado.

Portanto, invista ativamente em sua educação e não perca nenhuma oportunidade de adquirir conhecimento. Não se resuma em aprender apenas as lições inerentes ao seu cargo, isso não é mais suficiente. Por fim, busque conhecimentos multidisciplinares e esteja preparado para uma ruptura total em seu mercado.

O Impostor?

Imagine que está considerando uma promoção para um cargo desafiador e dinâmico. Você pode considerar que não está preparado para a posição, pois pensa que as habilidades que possui hoje não são suficientes, ou pode ficar empolgado, contemplando quantas coisas novas poderia aprender.

O fato é que, apesar de ser realmente necessário ganhar maturidade no cargo atual, antes de pensar em crescer, ninguém está preparado para uma função que nunca exerceu.

Ficar sempre tentando provar (muitas vezes para você mesmo) uma imagem de pessoa extremamente talentosa, que não comete erros e está pronta antes mesmo de assumir qualquer desafio, é sufocante.

Geralmente, essa fixação em transmitir uma imagem positiva, traz consigo uma sensação de que você pode ser desmascarado a qualquer momento, como se todo o seu valor fosse uma ilusão, um personagem criado ao longo do tempo.

O medo de não atender às expectativas paralisa muitos profissionais com enorme potencial de sucesso, abalando sua autoconfiança. Por isso, deixe claro para todo mundo (incluindo você mesmo) que é um aprendiz, não um impostor.

O domínio de uma tarefa vem com o tempo, e o sucesso se aprende na derrota. Você vai precisar correr algum risco e falhar de vez em quando, se quiser evoluir na carreira.

Assim, vai perceber que boa parte de suas inseguranças não sobrevive ao mundo real.

Superar a mediocridade

A carreira executiva não é um lugar fácil. Você vive em um mundo que te esmaga para o centro, empurrando todos à mediocridade.

Um dos motivos é meramente matemático. Daniel Kahneman chama essa tendência de regressão à média.

Para exemplificar, imagine que, na média, os vendedores de uma equipe entregam 100% de suas metas, todos os meses.

Se o vendedor A entregar 110% em um mês, existe uma grande possibilidade de retornar aos 100% no mês seguinte, o que significaria uma queda de performance.

No lado aposto, se o vendedor B entregar 90% em um período, também deve retomar os 100%, melhorando seu resultado.

Claro que existem os outliers, mas nesse caso, estamos falando apenas de estatística, uma flutuação natural e errática do desempenho de cada vendedor, que leva todos ao centro.

Para piorar, temos o viés humano. Do ponto de vista gerencial é bem provável que o vendedor B ganhe elogios ou recompensas no segundo período por ter melhorado seu resultado, enquanto explicações pela queda sejam exigidas do vendedor A.

Assim, valorizamos o acaso, não o esforço. Nesse cenário, a regressão à média, além de não ser percebida, ainda é incentivada.

Conhecemos muitas alavancas e incentivos para fazer com que aqueles com desempenho inferior alcancem a média. Porém, por outro lado, também vemos os melhores serem empurrados para a mediocridade.

As pessoas mais talentosas são puxadas para baixo por causa dos paradoxos do mundo corporativo. Você pode inovar e “arriscar” em algum projeto, desde que esteja sempre certo, como vimos no post Inovação Empresarial.

Ou, então, chefes agressivos podem desencorajar as pessoas a falarem abertamente sobre os problemas, sugerirem alguma ação ou discutirem a melhoria de algum projeto. Assim, as pessoas mais talentosas se resumem ao básico, se economizam.

Quando nos tornamos cientes dessa dinâmica, podemos nadar contra a maré e criar estratégias para superar essas “forças”. 

Observe, experimente e entregue o melhor possível, nunca se satisfaça com o médio. Fazer o suficiente, já não é suficiente. 

Utopia X Distopia

Um dos grandes destruidores de carreira é a expectativa. Vejo muitas pessoas se sentirem infelizes quando alcançam posições mais altas na escalada corporativa, simplesmente, porque não encontram o que esperavam.

A verdade nua e crua é que não existe trabalho perfeito. Você pode encontrar algo que goste muito de fazer, mas ainda terão atividades desta mesma função que vão lhe aborrecer.

Você terá dias ruins, que preferia nem ter saído da cama, e outros péssimos, que preferia esquecer (e muitas vezes sequer sabe o motivo).

Criar expectativas que um dia terá um trabalho apaixonante 100% do tempo vai lhe trazer muita frustração, quando se deparar com a realidade.

Ao depositar suas esperanças em uma utopia, poderá criar sua própria distopia. Fuja dessa armadilha.

Para mim, o trabalho em si deixou de ser o que me motiva há muito tempo. O que me traz satisfação, de verdade, é o produto desse trabalho, o valor gerado e o aprendizado. 

Então, quando vislumbrar uma função, dê menos foco às tarefas e mais às consequências.

Esperança X Agirança

Em uma reunião de resultados com os gerentes da minha equipe, surgiu o comentário de que deveríamos ter esperança que as metas seriam entregues.

Na mesma hora, alguns se entreolharam de uma forma desconfortável. Foi quando, de maneira bem descontraída, surgiu um novo termo: Precisamos é de agirança!

Afinal, “esperar” que as coisas dêem certo, sem “agir” de maneira disciplinada, não é a melhor receita para garantirmos as melhores entregas.

Na mitologia grega, quando Zeus criou Pandora, a primeira mulher, ele a enviou à Terra junto com uma caixa. Nessa caixa, haviam “castigos para a humanidade, como a discórdia, a guerra, a inveja, a dor e todas as doenças do corpo e da mente”.

Assim que, por curiosidade, Pandora abriu a caixa, todos os males se espalharam pelo mundo. A única coisa que permaneceu presa na caixa foi a esperança (daí que surge o termo “A esperança é a última que morre”).

Segundo a mitologia (pelo menos algumas interpretações), trata-se de uma benção mista, dúbia.

Seria um presente de Zeus para os humanos conseguirem lidar com os males da caixa ou seria a própria esperança também um mal? “Um mal que frequentemente seduz o homem e o leva a destruição passiva”, sem reação, sem luta.

De maneira poética, a esperança pode nos salvar, mas também nos destruir.

A nossa opinião sobre o significado dessa passagem depende da perspectiva de cada um, mas quando reduzimos o dramaticidade, trata-se de um ótimo ponto de partida para refletirmos sobre a esperança.

Portanto, acredite que as coisas vão dar certo, mantenha o otimismo, mas não espere. Aja!

Multitarefas X Intertarefas

Minha intenção não é ficar construindo novas palavras, mas o termo serve bem para definir uma das características dos executivos que melhor conduzem seu trabalho, a capacidade de alternar entre as suas tarefas.

Valorizamos muito o profissional multitarefas, aquele que consegue fazer muitas coisas ao mesmo tempo, porém, entendo que a complexidade do mundo atual exige profissionais que saibam mudar de um assunto ao outro, mantendo atenção absoluta em todos eles, um de cada vez.

Isso é muito nítido em profissionais com mais experiência.

Surge um assunto altamente estressante, que faria um novato ficar remoendo aquela informação pelo resto do dia (ou até a hora de “tentar dormir”), o profissional intertarefas trata esse tema de maneira objetiva e, em questão de segundos, passa a se concentrar totalmente em outro assunto, com naturalidade e serenidade.

Certamente, essa é uma habilidade que preciso desenvolver. Muitas vezes, não consigo tirar um assunto anterior da cabeça, o que acaba atrapalhando as próximas atividades. Preciso aprender a “abandonar” seletivamente o passado.

Então, concentre-se no que está fazendo, mas aprenda a alterar o foco rapidamente.

Run, Forrest

Com o avanço da carreira, você delega mais, faz menos trabalho operacional, passa a atuar conforme as demandas e ainda ganha mais por isso. Assim, quando adquire alguma experiência na nova função, pode se encontrar em uma posição confortável e tende a se acomodar.

Pode achar também que já tem muita bagagem e não precisa se desenvolver no mesmo ritmo de antes.

Se o seu objetivo é continuar crescendo, precisa ficar de olho nessa tendência. Muitas vezes, não percebemos essa acomodação, nosso gestor não dá um feedback a tempo e, assim, nosso plano de carreira pode ir por água abaixo.

Você deve continuar correndo atrás de seus objetivos em todos os momentos de sua carreira, como se fosse um novato. Uma famosa frase de Steve Jobs resume muito bem essa dinâmica:

Stay Hungry, Stay Foolish“.

A citação nos alerta para uma necessidade de continuarmos “famintos“, para irmos atrás de nossos sonhos, e “tolos“, para admitirmos nossa ignorância e estarmos sempre abertos ao aprendizado.

Então, corra! …feito o “tolo” do Gump.

Elimine o ruído

Temos um verdadeiro turbilhão de pensamentos em nossas mentes. Na maioria das vezes, são eles que ofuscam a nossa percepção daquilo que realmente queremos e somos.

É difícil separar, por exemplo, a Tirania dos Deveres e as convenções sociais daquilo que temos de mais verdadeiro, mais original.

Assim, não sabemos muito bem do que se trata nossa ansiedade e acabamos nos devotando às necessidades alheias. Situação que nos faz viver com a insegurança de “ter” ou a inquietação de “fazer” e acaba nos privando da serenidade de “ser”.

Para ilustrar, pense em uma viagem para o exterior e aquele desejo que temos de ir em busca de aventuras que nos afastem um pouco da nossa “tediosa” vizinhança.

O problema de uma viagem é que o lugar muda, mas nós continuamos sendo os mesmos. No máximo adquirimos novos hábitos ou alguns comportamentos.

Isso pode ser ótimo para alguns, mas muito frustrante para outros, depende da intenção e expectativa de cada um.

Na sua carreira é a mesma coisa, descubra quem você é e o que quer de verdade. Como em uma viagem, você não vai assumir uma nova identidade pelo lugar em que se encontra.

A verdade é que você vai precisar de muito autoconhecimento nessa caminhada. Mas, no final das contas, talvez esse seja o único propósito.

Então, escolha suas armas para exorcizar os seus fantasmas e diminuir o ruído, como a meditação, uma caminhada introspectiva na natureza, o mindfulness, alguma terapia ou, simplesmente, uma bela e sincera conversa com os amigos.

O que importa é dar o primeiro passo. Só assim você terá a clareza suficiente para refletir, pegar o caminho certo e ir em busca daquilo que realmente importa.

Questione tudo

Após todos esses anos escrevendo nesse blog, tenho uma única certeza: Quem tem certeza está errado.

Não existe verdade absoluta, nada é imutável, e a própria realidade é um fenômeno ilusório, pessoal e intransferível. No final das contas, vemos o mundo como nós somos, não como ele é.

Isso tem me ajudado na vida e na carreira, consigo encarar as coisas de uma forma mais transparente, sem rigidez, livre de julgamentos solidificados ou certezas permanentes. O mundo líquido fica mais leve.

Por isso, devemos questionar tudo, desde um paradigma de mercado, um gráfico, uma autoridade e, principalmente, nossos próprios hábitos.

Como vimos no post Sapiens 2.0, devemos intensificar nossa consciência, questionar nossos comportamentos e vigiar nossas decisões inconscientes.

Não deixe a sua vida no piloto automático, assuma a direção.

Maturidade Profissional

O tempo, quando bem aproveitado e aliado a tudo o que discutimos nos 3 posts sobre carreira, faz com que tenhamos comportamentos mais decisivos para nossas carreiras.

Um profissional maduro apresenta alguns comportamentos que o destacam. Podemos citar alguns exemplos:

  • Sabem receber críticas. Eles têm mais “casca” e, consequentemente, confiança.
  • Possuem segurança para expor suas ideias e falar em público.
  • Não esperam ser cobrados ou demandados, são proativos e “automotivados”.
  •  A vaidade deixa de ser uma questão importante, possuem mais humildade para aceitar uma opinião diferente e incorporá-la em sua vida.
  • Nutrem a influência dentro da organização.
  • São referências e estimulam a colaboração.
  • Não vivem em uma caça às bruxas, apontando culpados. Se concentram em solucionar e prevenir problemas de maneira objetiva.
  • Não levam para o pessoal, não guardam rancor.
  • Aguentam os “chiliques” e falhas de chefes, funcionários, colegas ou clientes, com tranquilidade.
  • Se dedicam menos aos créditos e mais às entregas.
  • Conhecem seus pontos fortes e fracos.
  • Têm clareza de onde querem chegar.
  • Sabem a diferença entre reclamar e apontar uma oportunidade.
  • A insegurança diminui e deixam de ter uma postura defensiva.
  • Possuem Visão de Negócios e Pensamento Sistêmico. Eles conhecem bem a máquina.

Para Finalizar

Uma das lições mais importantes que tive nesses últimos anos resume muito bem os propósitos desse post. Ela veio do CEO da Telefônica Brasil, Christian Gebara.

Segundo o executivo, o sucesso depende de uma tríade: Intenção, Disciplina e Tempo.

Intenção para plantar aquilo que é certo, disciplina para cultivá-lo e tempo, para o amadurecimento. Só assim podemos colher valor consistente, verdadeiro.

Sem pressa, sem atalhos, sem “meia boca”.

Portanto, defina um objetivo para sua carreira, tenha a intenção correta, valorosa, considerando o que faz sentido para você.

Depois, busque esse objetivo de maneira disciplinada. Avance um pouco de cada vez, mas tem que ser todo dia.

Então, resta dar tempo ao tempo, viver as melhores experiências, saborear o caminho e aproveitar o presente da jornada.

A sua hora de colher os frutos vai chegar. Esteja preparado!

 

Referências: Rápido e Devagar, Daniel Kahneman, 2011. Jack Ma: Precisamos mudar a forma de ensinar e aprender, Época Negócios (link), acesso em 10 dez. 2018. O que é caixa de Pandora? Superinteressante (link), acesso em 19 dez. 2018.

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