Com ou sem emoção?

O novo estoicismo = Razão e Serenidade

Estoicismo é uma doutrina que teve início há cerca de 300 a.C. em Atenas, mas teve suas ideias mais difundidas no Império Romano, onde floresceu como principal base para ética pessoal e política, até ser suplantado pelo cristianismo no século VI.

Seu principal idealizador, um homem chamado Zenão de Cítio, foi o primeiro a argumentar que o homem deveria “viver conforme a natureza“. Segundo seus princípios, o que difere os animais das plantas é o impulso, portanto, a natureza do mundo animal é o instinto.

A diferença entre o homem e o animal seria a razão, ou seja, para viver conforme a natureza, o homem deveria seguir a sua racionalidade.

Segundo Ubaldo Nicola, a obra Tranquilidade da Alma, de Sêneca, outro influente pensador estoico, diz que o homem deveria colocar sob controle racional o seu componente emocional:

As emoções são doenças do espírito que perturbam o indivíduo e criam continuamente novas necessidades. A qualidade do sábio, portanto, é a indiferença, e a finalidade de sua existência é a apatia, que nasce da supressão de seus desejos“.

A linha de pensamento de Sêneca defende, também, que deveríamos aceitar certas condições da vida, porque, ao não fazê-lo, acabamos piorando a situação. Como, por exemplo, virar de um lado para o outro na cama quando não conseguimos dormir. Tal agitação serviria apenas para que o corpo e a mente ficassem ainda mais despertos.

Essa necessidade de movimento e mudança, segundo ele, é uma tentativa inútil de melhoria, dizia ainda que os homens se entediam de tudo que está ao seu alcance:

…e assim fazem uma viagem após outra, passam de um espetáculo a outro. Cada um foge sempre de si mesmo. Mas de que adianta, se não podemos nos evitar? Cada um persegue e sai ao encalço de si mesmo, como um companheiro que o oprime.

Lúcio Aneu Sêneca

Essa noção do homem racional foi tomando outros caminhos, conforme as novas descobertas da ciência sobre o cérebro e a psique humana.

Alguns sem qualquer cabimento, como na Inglaterra do século 18, quando, segundo os escritores Michael Mosley e John Lynch, surgiu uma nova ordem de requinte, associada a uma crescente repulsa pelo corpo humano, comparado ao dos animais em suas imperfeições:

“Na sociedade elegante os corpos eram cobertos por talcos, roupas e perucas, enquanto ‘a mente’, nosso dom refinado e plenamente humano, era cada vez mais valorizado.”

Outros avanços, no entanto, são realmente importantes para entendermos a racionalidade. Sigmund Freud foi um dos primeiros a reformular a noção do eu como principal condutor das decisões humanas.

Segundo sua teoria, seríamos controlados pelo inconsciente: “As emoções mais básicas determinam ações e pensamentos, como manipuladores ocultos que comandam uma marionete.”

Essas ações causadas por impulsos são facilmente percebidas e afetam diretamente nosso cotidiano. Você já se perguntou, por exemplo, por que as pessoas abusam de alimentos altamente calóricos, mesmo sabendo que fazem mal a saúde e causam a obesidade, uma das maiores pragas da atualidade?

Considere nossos mais antigos antepassados, que viveram em savanas e florestas, onde alimentos doces e calóricos eram extremamente raros e a comida em geral era escassa.

Segundo o historiador Yuval Noah Harari, se um homem da Idade da Pedra encontrasse uma árvore repleta de figos, a coisa mais razoável a fazer era ingerir o máximo que pudesse imediatamente, antes que um bando de babuínos ou outro concorrente comesse tudo.

Hoje, podemos morar em apartamentos com geladeiras abarrotadas, mas nosso DNA ainda pensa que estamos em uma savana“.

Essa teoria do “gene guloso” é apenas uma das evidências de que somos manipulados por instintos que foram moldados em ambientes totalmente diferentes do nosso.

As sociedades mudaram mais rápido do que nossas emoções foram capazes de se adaptar.

Pense na “necessidade” que você sente de “defender seu território”, quando um carro entra na sua frente no trânsito, ou na necessidade de pertencer ao grupo dos que bebem mais copos de cerveja no happy hour.

Reflita sobre como nosso impulso de economizar energia do corpo impede que tenhamos uma vida mais ativa, ou sobre o conceito de que uma vida sofrida é mais digna. Pense em como sua “intuição”, as vezes, lhe diz para abandonar um negócio, pois você corre o risco de enriquecer e ser considerado esnobe ou desonesto. 

Para piorar, ao compartilhar das mesmas emoções, os indivíduos tendem a criar pensamentos e preconceitos moldados pelo hábito, gerando comportamentos em manada, ou o que Robert Kyosaki chama de Corrida dos Ratos.

O filósofo espanhol José Ortega y Gasset alerta que devemos desafiar essas circunstâncias tanto no nível pessoal quanto no político. Afirma ainda que “a democracia carrega em si a ameaça da tirania pela maioriae que “viver como todo mundo é viver sem visão pessoal ou código moral“.

Esses comportamentos herdados de situações ultrapassadas que não foram questionados e não nos ajudam mais a sobreviver, pertencer ou proteger, podem ser evitados se adaptarmos alguns ensinamentos da doutrina estoica.

A reflexão, a revisão de paradigmas e o uso racional das emoções podem contribuir para uma sociedade mais harmoniosa. A serenidade perante qualquer situação, inclusive as mais adversas, favorecem a felicidade e as decisões racionais garantem um futuro mais promissor.

É importante entender que seguir a razão não significa se tornar escravo da racionalidade, ignorando instintos e emoções. O homem que aceita sua natureza e tem domínio de si aprende a administrar seus impulsos, aceitando sua influência, quando lhe convém.

Portanto, não seja marionete de suas emoções, nem finja que elas não existem, faça com que trabalhem a nosso favor.

Para encerrar o post, cito uma frase do mais célebre dos estoicos: o imperador Marco Aurélio. Seu livro, chamado por ele de “Para Mim Mesmo” e publicado como “Meditações“, trata-se de uma coletânea de insights anotados durante sua vida:

“Prepare-se para a ação com estes dois pensamentos: primeiro, faça apenas o que sua razão soberana e em conformidade com a lei lhe diz que é bom para os outros; e segundo, não hesite em mudar o curso se alguém é capaz de lhe mostrar em que você está errado ou lhe aponta um caminho melhor.

Mas convença-se apenas por um argumento baseado na justiça e no bem comum, nunca pelo que o atrai pelo gosto por prazer ou popularidade. Se a razão trabalhar por você, de que mais pode necessitar?

Marco Aurélio

Referências: Uma Breve História da Humanidade, Yuval Noah Harari, 2012. Uma História da CIência, Michael Mosley e John Lynch, 2011. Antologia ilustrada de Filosofia, Ubaldo Nicola, 2005. O Guia do Imperador, Scot Hick e David Hicks, 2002. Meditations, Marco Aurélio, 121-180. O Livro da Filosofia, diversos autores, 2011.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *