Empreendedorismo de Palco

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Como a evangelização do empreendedorismo pode frustrar uma geração.

Você certamente já leu algum livro, uma revista ou assistiu algum vídeo sobre os “grandes atalhos” para o sucesso e a independência financeira.  As “n” dicas para o sucesso parecem infalíveis, os vídeos mostram depoimentos de pessoas comuns que se tornaram multimilionários do dia para noite através do empreendedorismo e investimentos ousados. O que desperta em todos nós o sentimento de que também podemos conquistar a nossa parte se nos dedicarmos o suficiente. Será que é só isso?

Hoje, ter uma Startup é sexy, chama a atenção, dá status. A verdade é que o empreendedorismo está virando uma espécie de religião, muitos o veem como a solução para os problemas financeiros, as desavenças com o chefe ou a falta de tempo, uma visão mais confortável de futuro ou, simplesmente, o único destino possível para alguém tão “brilhante” e destinado ao sucesso total.

O problema é que tudo isso pode ser fonte de grande frustração para grande parte de uma nova geração de profissionais. Os empreendedores de palco costumam evangelizar a prática e convocar seus discípulos para uma missão que será um grande trunfo para a humanidade. É verdade que muitas pessoas prosperam, porém, o número de pessoas que fracassam é, obviamente, muito maior.

Os fatores externos

A confiança é condição sine quo non para o sucesso, mas se uma série de outros fatores não forem favoráveis, ela não é suficiente. Considere a economia americana, por exemplo, na terra do Tio Sam existe uma cultura empreendedora muito forte, você já deve ter escutado a frase work hard and play by the rules (trabalhe duro e siga as regras), essa é a base do “American Dream“, uma crença do povo americano que diz que as conquistas são proporcionais e exclusivas ao esforço individual: a casa própria, um emprego estável e um plano de aposentadoria seguro são os grandes pilares desse sonho.

Mas parece que as coisas estão mudando. Um texto publicado recentemente no site Epoch Times mostra, com riqueza de dados, que a realidade já é outra. Salários estagnados, desemprego, mercado imobiliário inflacionado e a insegurança com os planos de aposentadoria fizeram com que o “sonho” adquira um sentido mais literal. “Americanos parecem não acreditar mais que o trabalho duro e determinação sejam suficientes para o sucesso financeiro

E não é apenas o “trabalho duro” que está em xeque, as “regras” também estão mudando. Hoje as crianças aprendem programação na escola, o Big Data nos dá informações das quais nunca tivemos acesso, novas tecnologias surgem a todo momento, o jogo mudou:

“A verdade é que se você quiser um trabalho decente que o leve a uma vida decente, você vai ter que trabalhar mais, se reinventar regularmente, manter-se comprometido com uma educação continua ao longo da vida e seguir as regras. Isso não fica tão bom para um adesivo, mas nós estamos passando uma terrível orientação às pessoas dizendo o contrário”.

Thomas Friedman para o New York Times

A educação

O que vimos até aqui, nos mostra que a dedicação por si só, não é suficiente para o sucesso, um cenário econômico favorável e novas tecnologias são apenas alguns exemplos de fatores essenciais para que tudo corra bem. A solução, seria capacitar os jovens para lidar com todos esses desafios e nuances, porém, apesar de sermos bombardeados por discursos favoráveis ao empreendedorismo, não estamos proporcionando ferramentas suficientes para esses futuros empreendedores. No Brasil, existe uma grande lacuna sobre o tema. Uma pesquisa realizada pelo Sebrae e Endeavor Brasil, com milhares de estudantes por todo o País, nos mostra alguns fatos preocupantes:

  • Não há espaço para tantos “donos”
empreendedorismo 1
60% dos estudantes brasileiros querem empreender, e isso aumenta de acordo com o tempo de curso. Se tudo dependesse de merecimento, poderíamos ter mais empregadores do que empregados.
  • Falta de orientação profissional
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A grande maioria dos estudantes, busca informações sobre empreendedorismo na internet, trazendo a possibilidades de acesso a relatos irreais ou supervalorizados.
  • Ensino nas universidades é apenas introdutório
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As instituições de ensino estão oferecendo, em sua maior parte, apenas disciplinas introdutórias de empreendedorismo. Gerando baixo conhecimento técnico para abrir um negócio
  • Falta de preparo para lidar com o fracasso
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Apenas metade dos estudantes afirmam ter recebido orientações de como lidar com o fracasso. Amentando o risco de desistência e frustração nos primeiros obstáculos

Nessas condições, a autoeducação é uma das poucas saídas para se preparar para os desafios de empreender. Malcolm Gladwell, em seu livro Fora de Série, estudou os motivos que levam algumas pessoas a serem bem sucedidas e outras não. Em um de seus insights mais famosos, Gladwell encontrou o tempo de preparação necessário para se chegar a excelência: 10 mil horas. Segundo ele, os grande gênios da nossa história seguem esse padrão.

O acaso

O psicólogo canadense Roger Basrnsley também encontrou um fato curioso sobre o sucesso. Ele notou que existe um padrão na data de nascimento dos melhores jogadores de hóquei do Canadá: 40% dos jogadores aniversariam entre janeiro e março; 30% entre abril e junho; 20% entre julho e setembro; e 10% entre outubro e dezembro:

“A explicação para esse fenômeno é bem simples. Não há nenhuma relação com a astrologia nem nada de mágico envolvendo os três primeiros meses do ano. Simplesmente no Canadá a data limite para se candidatar às ligas de hóquei por idade é de 1º de janeiro. Um menino que faz 10 anos em 2 de janeiro pode, então, jogar com outro que não completará 10 anos antes do fim do ano – e, nessa fase da pré-adolescência, uma defasagem de 12 meses representa uma enorme diferença em termos de desenvolvimento físico”

Com essa vantagem física, esses meninos se destacam e acabam recebendo maior atenção, ganham mais oportunidades de desenvolvimento e recebem muito mais estímulo para continuar. Ou seja, um fator absolutamente inesperado, contribui para o sucesso de dezenas de garotos, uma vantagem de apenas alguns afortunados.

A Forbes publicou recentemente a lista das 75 pessoas mais ricas da história da humanidade. O patrimônio líquido de cada uma delas foi calculado em dólares atuais. Essa relação inclui tanto reis, rainhas e faraós do século passado quanto bilionários contemporâneos, indo de de Cleópatra a Warren Buffet. O curioso é que os dois homens mais ricos da história (John D. Rockefeller e Andrew Carnegie) e outros 12 da lista fizeram riqueza no mesmo país e nasceram em um intervalo de apenas 9 anos: EUA, entre 1831 e 1840. Talvez o sonho americano funcionasse melhor naquela época ou eles foram as pessoas certas, na hora certa e no lugar certo.

“…ninguém se faz sozinho. Todos os que se destacam por uma atuação fenomenal são, invariavelmente, pessoas que se beneficiaram de oportunidades incríveis, vantagens ocultas e heranças culturais. Tiveram a chance de aprender, trabalhar duro e interagir com o mundo de uma forma singular.”

Malcolm Gladwell

O desafio

O intuito desse post, é desafiar o mito propagado atualmente de que o sucesso e, consequentemente o fracasso, dependem apenas do quanto nos achamos merecedores. Lembrem-se que enquanto o seu empreendedor de palco favorito estava alcançando o sucesso, muito mais gente estava falhando, e isso não quer dizer, necessariamente, que eles foram menos “esforçados” ou merecedores.

Ler um livro motivador, assistir uma palestra ou escutar os conselhos de alguém bem sucedido não nos dá um passaporte mágico para o topo, a jornada é bem mais complexa do que isso. A confiança adquirida ajuda, mas serão necessários muito trabalho, educação, preparaçãoalguns tropeços e uma pitada de sorte para que você chegue lá.

Não vai ser fácil! Acostume-se com isso e aproveite a viagem!

 

Referências: Empreendedorismo nas Universidades. SEBRAE e Endeavor Brasil, disponível em: link, acesso em 10 de abril de 2016. Is The American Dream Dead? theepochtimes.com, disponível em: link, acesso em 10 de abril de 2016. New Rules. nytimes.com, disponível em: link, acesso em 10 de abril de 2016. Fora de Série. Outliers. Malcolm Gladwell, 2008. Conversando sobre Economia com a Minha Filha. Yanis Varoufakis, 2013. Essencialismo, Greg McKeown, 2014

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