Equilíbrio

O lado bom do lado ruim… e vice versa

A busca por uma vida balanceada faz parte dos objetivos de muitas pessoas. Uma “mente equilibrada” teria poderes de livrar os indivíduos de frustrações e angústias cotidianas, proporcionando maior serenidade e, portanto, uma vida mais plena e feliz.

Existe, porém, uma incoerência nessas afirmações. A ausência de problemas tiraria o peso de um dos lados da balança, desestabilizando qualquer conceito de equilíbrio, que, segundo a física newtoniana, alcança-se pela contraposição de uma força à outra, oposta e de igual intensidade. Ouso dizer, então, que as adversidades da vida são tão importantes quanto as conquistas, na mesma medida e intensidade.

Esse conceito não é novo, Aristóteles fazia tais reflexões há mais de 300 anos a.C. Seu argumento era que a vida virtuosa, ou simplesmente, aquela que deve ser vivida, atinge seu ápice através do equilíbrio. Segundo ele, tanto a excesso quanto o escassez de exercícios físicos, por exemplo, torna o homem mais fraco, assim, apenas o ponto central valeria a pena. O mesmo acontece com a coragem, que é o ponto de equilíbrio entre aquele que é tímido e o temerário ou com a moderação, que está entre o intemperante e o insensível:

A virtude é, portanto, uma ordenação de intenções, que consiste na medição em relação a nós mesmos, definida pela razão e estabelecida como faria o homem sábio. É uma medição entre dois vícios; um por excesso, e outro por escassez. E como alguns vícios são por escassez e outros são por excesso do que é devido, seja nas paixões, seja nas ações, a virtude encontra e escolhe o justo meio”.

Aristóteles

O tema também é objeto de estudo de grandes psicólogos, Sigmund Freud e Melanie Klein consideram que nossa mentes vivem constantemente em um conflito de forças opostas, uma luta entre o que consideramos o bem e o mal. Em uma mente equilibrada, verificaríamos uma alternância de vencedores, então, poderíamos ter, por exemplo, comportamentos mais agressivos em alguns momentos e mais passivos em outros. Mas, uma atitude nunca se sobreporia à outra.

Freud dizia que as mais poderosas das forças, ou pulsões como gostava de chamar, são as da vida e da morte. Elas representariam as extremidades de um grande campo de batalha, onde todos os demais sentimentos são forçados a competir continuamente com forças igualmente poderosas. Do resultado desses combates, derivam nossos sentimentos e atitudes. E é dentro desse campo que, segundo Klein, deveríamos aprender a tolerar e administrar esses conflitos se quisermos viver bem.

Essa noção de que precisamos tanto de coisas boas quanto de coisas ruins – e na mesma proporção – para termos uma vida balanceada, faz com que estejamos mais preparados para as adversidades, afinal, elas seriam essenciais à uma vida plena. Aprender a tolerar e conviver com esses sentimentos negativos causados por problemas externos, torna o indivíduo mais forte e é nisso que devemos nos apegar quando estamos por baixo.

A busca por uma vida ausente de derrotas, aflições ou frustrações torna-se, portanto, uma visão utópica, mas, da mesma forma, uma vida cercada de problemas pode ser apenas um desequilíbrio de forças que te faça agir ou sentir de forma negativa, o que nos dá mais esperança de virar o jogo.

A necessidade de equilíbrio também é evidente na vida em comunidade. Uma das maiores referências acadêmicas em administração, Antonio Maximiano, cita a Teoria da Equidade, em seu livro Teoria Geral da Adminitração. Seu ponto central é a crença de que as recompensas devem ser proporcionais ao esforço e iguais para todos. Sua premissa é que as pessoas sempre fazem comparações entre seus esforços e recompensas com os dos outros. A desarmonia, entre a expectativa e realidade causada pela comparação com a recompensa alheia, pode gerar dissonância cognitiva e, consequentemente, grandes prejuízos no desempenho e moral do indivíduo.

O que essas reflexões nos ensinam é que os sentimentos, bons ou ruins, estão dentro de nossas mentes, competindo por maior atenção. Sua postura em relação a eles, seus filtros, as comparações e a capacidade de absorver feedbacks externos têm grande poder de favorecer os vencedores dessa disputa. Basta você conhece-los e escolher um lado.

Referências: Teoria Geral da Administração, Antonio Cesar Amaru Maximiano, 2012. O Livro da Psicologia, diversos autores, 2012. Antologia Ilustrada da Filosofia, Ubaldo Nicola, 2010.

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