Superficialidade

Existe um lado bom nas tendências atuais de superficialidade?

A grande disponibilidade de informações nos dias de hoje mudou a nossa maneira de obter conhecimento , criou um senso de urgência, principalmente nos mais jovens, que levam a praticidade muito a sério.

Essas mudanças ficam muito evidentes na literatura, antigamente, para um livro ser considerado bom, deveria ter muitas páginas. Se o autor não fosse capaz de escrever um vasto conteúdo sobre o tema, que prendesse nossa atenção por várias e várias semanas, não seria merecedor de ser referência sobre aquele assunto. Na universidade também tínhamos esse exemplo, a regra para um bom TCC era “falar muito sobre pouco“. Ou seja, escolher um tema simples, sem muitas variáveis e consolidar toda informação possível sobre ele. As pesquisas da escola significavam longas jornadas na biblioteca.

Essa profundidade funciona muito bem em algumas ocasiões, pesquisadores, por exemplo, não podem navegar na superfície de um tema, devem mergulhar e explorar todo conteúdo possível.

Mas, e nós? No cotidiano, estamos cada vez mais superficiais, buscando informações ágeis e resumidas. Surgem os TED Books, livros feitos para serem lidos de uma só vez, os trabalhos de conclusão de curso começam a apontar para prática, como a construção de projetos ou Business Plan, e o que é ainda mais impactante: a biblioteca inteira foi parar no seu bolso. A forma como consumimos informação muda a cada dia, estamos nos adaptando às tecnologias e a cenários competitivos, onde a agilidade tem seu valor aumentado.

Esses novos hábitos são constantemente atacados por entusiastas da especialidade, que alegam estarmos perdendo oportunidades de um conhecimento mais profundo das coisas. Isso pode ser um problema para alguns, dependendo de seus interesses, mas não podemos generalizar e considerar que é um comportamento a ser combatido. Se bem administrado, essa nova tendência tem seus benefícios.

Hermann Ebbinghaus, um influente pesquisador do século XIX, mostrou através de pesquisas, que “esquecemos dois terços do que aprendemos nas últimas 24 horas”, além disso, alegou que, em geral, ocorre uma perda rápida de recordação na primeira hora de estudo. Isso nos mostra que passar horas e horas estudando pode não ter efeitos muito mais “profundos” de conhecimento, já que a capacidade de memorização humana tem seus limites, não podemos saber muito de muito. Aproveitar o máximo da atenção do cérebro, apenas com o conteúdo mais relevante, pode ser uma grande vantagem para as informações disponíveis de formas didáticas e que vão direto ao ponto.

Um aspecto importante que já discutimos em outro post diz respeito ao psicólogo Serge Moscovici, que aborda como “senso comum” uma versão simplificada do conhecimento humano: “A tradução de conceitos intrincados para uma linguagem mais acessível e mais fácil de ser transmitida não é problemática, porque o objetivo não é desenvolver conhecimento, mas estar a par dele”. Seus estudos nos mostram que, de maneira geral, as pessoas adquirem apenas o conhecimento essencial, para serem capazes de construir um raciocínio e participar ativamente desse “circuito coletivo”. Nesse caso, a intenção é saber um pouco de tudo e não muito de pouco.

Meu argumento favorito para essa discussão é o desenvolvimento da capacidade cognitiva do ser humano ao longo dos anos. Existem fortes indícios de que o tamanho médio do cérebro do homo-sapiens diminuiu desde a era dos caçadores-coletores. Quem aborda essa teoria de forma brilhante é Yuval Noah Harari em seu livro Uma Breve História da Humanidade. Ele aponta que o ambiente daquela época exigiu que os homens tivessem habilidades mentais sofisticadas, como fazer mapas mentais de seu território, ter informações sobre o padrão de crescimento das plantas, conhecer hábitos de cada animal, os benefícios e malefícios dos alimentos, conhecer o progresso das estações do ano e seus efeitos, estudar cada aspecto do seu habitat, saber fabricar instrumentos, fazer roupas, preparar armadilhas, cuidar dos feridos, defender seu território e muitas outras capacidades que eram aprendidas ao longo de suas vidas.

Com o início da agricultura e indústria, cada indivíduo passou a ter sua função, se aprofundando e se especializando na sua profissão, enquanto outras pessoas faziam o restante do trabalho. “A coletividade humana conhece, hoje, muito mais do que bandos antigos. Mas, no nível individual, os antigos caçadores-coletores foram o povo mais conhecedor e habilidoso da história

Vejam que conhecer um pouco de muito pode trazer grandes vantagens para os indivíduos, tanto quanto a especialidade. O objetivo desse post não é defender a superficialidade, mas alertar que ela não é a grande vilã que tem sido considerada. Cada realidade demanda um comportamento diferente, não podemos rotular o certo ou o errado, apenas conhecer as possibilidades e buscar nosso melhor.

Referência: O Livro da Psicologia, Diversos autores, 2012. Uma Breve História da Humanidade, Yuval Noah Harari, 2012.

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