Como ser líder – uma questão de perspectiva

Uma verdade inconveniente sobre como ser líder

Algumas semanas atrás, estava comprando o pãozinho de todo dia na padaria do meu bairro, quando ouvi duas jovens, na faixa de seus 20 anos, reclamando em alto e bom som de seu trabalho, infelizmente, uma cena típica em qualquer lugar. Em dado momento, o foco das reclamações passou a ser a sua gerente e uma frase me marcou: “…ela tem que entender que existe uma diferença entre chefe e líder. Ela não sabe como ser líder!

Isso me deixou com uma grande inquietação: seria a definição de boa liderança apenas uma questão de perspectiva? Afinal, aquelas jovens certamente não estavam avaliando a capacidade de seu chefe de gerar resultados para a empresa, baseado em estudos ou reflexões apuradas, mas sim, julgando, exclusivamente, a sua capacidade de fazê-las felizes, ou algo assim.

Me pareceu bastante lógico que a definição de uma boa liderança seja relativa ao observador (o que, de certa forma, deixaria Einstein orgulhoso). Um subordinado pode entender, por exemplo, que um bom líder é aquele mais calmo e compreensivo, enquanto um diretor executivo pode achar que os líderes sob sua gestão devam ser diretos e incisivos. Para validar essa hipótese, fui atrás de algumas informações.

O que pensam os jovens?

Em um levantamento realizado pela Cia de Talentos com mais de 60 mil jovens, entre 17 e 26 anos, conseguimos entender os principais atributos que definem um bom líder no ponto de vista deles: “35% consideram que é alguém que inspira e é visionário , 23% alguém que estabelece novas formas de pensar as coisas e 16% acham que é um exemplo de como agir”.

 O que pensam os altos executivos?

Para entender a opinião das pessoas do alto escalão, busquei os atributos que, na opinião de alguns dos executivos mais aclamados dos últimos anos, definem um bom líder:

  • Jim Collins: “Faz contribuições produtivas; contribui para que sejam atingidos os objetivos do grupo; organiza as pessoas e recursos na direção da busca efetiva e eficiente de objetivos; catalisa o comprometimento com uma visão clara e forte; constrói excelência duradoura”.
  • Ram Charam: “Conhece seu pessoal e sua empresa; insiste no realismo; estabelece metas e prioridades claras; conclui o que foi planejado; recompensa quem faz; amplia as habilidades das pessoas pela orientação; conhece a si próprio“.
  • Ben Horowitz: “Capacidade de formular e comunicar a sua visão; ambição sadia; capacidade de realizar a visão“.
  • Jack Welch: “Apetite para comandar; caráter; confiança para buscar desafios e abraçar riscos; capacidade para agir; habilidade para envolver e inspirar”.

O que isso quer dizer?

Esses dois públicos de influência do líder (jovens e altos executivos) estão em extremidades opostas da hierarquia empresarial e, como pudemos notar, possuem uma visão bastante diferente sobre liderança.

Enquanto os jovens buscam atributos que favorecem o desenvolvimento individual, os altos executivos buscam líderes capazes de entregar resultados. Essa contrariedade faz com que o líder se veja em uma encruzilhada. Pense em seus colegas de trabalho, se o seu líder tivesse o estilo considerado ideal por Jim Collins, eles estariam satisfeitos ou iriam reclamar como fizeram aquelas jovens da padaria?

Apesar de estarem em situações distintas, os jovens e altos executivos buscam tirar o maior proveito possível da situação, tentando fazer com que esses líderes se responsabilizem por seu sucesso e sirvam de justificativa para o seu fracasso.

A conclusão aparente é que a noção de uma boa liderança é egocentrada. Consideramos que alguém é um excelente líder baseado em nossos próprios interesses e nas vantagens que podemos obter.

Apesar de inconveniente, essa noção não é novidade nas relações interpessoais. Como já falamos em outra ocasião: “Não amamos o amado, mas as vantagens que ele nos proporciona”. Já discutimos também que toda comunicação traz intrinsecamente, uma mensagem oculta e egoísta. Na liderança é a mesma coisa, o que o indivíduo mais valoriza é a capacidade desse líder influenciar seus interesses.

Como ser líder, afinal?

Em primeiro lugar, não fique preso a percepções individuais, considere, sempre, um cenário mais amplo. Você tem que buscar atingir os objetivos da organização e, certamente, ter liderados satisfeitos e motivados irá lhe ajudar nessa função.

Entender essa dinâmica é muito importante para o líder conseguir realizar um bom trabalho. O tipo de equipe, bem como a sua estratégia de liderança, devem levar em conta todo o seu círculo de influência. Não adianta agir apenas de acordo com o que os jovens querem, tampouco seria inteligente ignorar esses insumos.

Se a satisfação com o líder depende da perspectiva de cada um, muitas das teorias tradicionais de liderança perdem sentido, afinal, cada uma dessas definições atendem apenas o interesse de algumas pessoas, que são influenciadas de maneiras diferentes.

Aquele que inspira, que tem visão, que assume riscos, que são exemplos de como agir, que insistem no realismo, que possuem confiança para buscar desafios, que estabelecem novas formas de agir, que ampliam as habilidades das pessoas e todos os inúmeros atributos atribuídos à boa liderança são apenas ferramentas ou formas de nortear o caminho para que o líder possa colaborar com os interesses dos demais.

Portanto, o bom líder é aquele que aumenta as chances de sucesso de todos aqueles que, de alguma forma, são impactados por ele. Seja criando valor para os acionistas, seja tornando o departamento de um alto executivo mais competitivo ou proporcionando oportunidades de desenvolvimento para um jovem recém contratado.

Como ser líder? Potencialize o sucesso de toda a organização!!

Referências Como ser líder: Como Jack Welch se tornou Jack Welch, Stephen Baum e Dave Conti, 2007. O Lado Difícil de Situações Difíceis, Ben Horowitz, 2014. Execução, Ram Charam e Larry Bossidy, 2010. Empresas Feitas para Vencer, Jim Collins, 2001. Os 10 líderes para admirados pelos jovens, link.

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