Autoconhecimento na Prática

Autoconhecimento: Sabedoria para saber a diferença…

Recentemente tive uma conversa com colegas sobre o excesso de pressão que colocamos sobre nós mesmos no trabalho. Queremos nos destacar em tudo o que fazemos, superar expectativas e, principalmente, não errar nunca. Não foi necessária muita reflexão para saber que isso não é possível, afinal, algumas coisas estão fora do nosso controle. Nesse momento, aquela famosa oração, escrita por Reinhold Neibuhr, veio à tona: “…serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as que posso e sabedoria para saber a diferença.”.

Ficou muito claro para todos os envolvidos naquela discussão que a serenidade da aceitação e a coragem da mudança seriam ingredientes fundamentais para equilibrar melhor as pressões que colocamos sobre nossos ombros. A parte mais difícil seria adquirir a tal sabedoria necessária para saber a diferença entre eles.

Afinal, se não tivermos a compreensão correta do que somos ou não capazes, corremos o risco de, em nossa busca natural por conforto, admitir que a aceitação seria a resposta para a maioria das coisas, evitando o acúmulo de mais responsabilidade.

Não podemos mudar o fato de que vai chover amanhã, por exemplo, mas simplesmente aceitar esse fato e não fazer nada, poderia colocar muita coisa em risco, desde uma simples viagem até uma construção ou uma plantação inteira. Isso nos mostra que as limitações, geralmente, não estão no mundo exterior. Para encontrar a diferença entre o que podemos e não podemos mudar, precisamos olhar para dentro de nós mesmos. O autoconhecimento é a aptidão que nos trará a sabedoria necessária para resolver esse dilema.

O que é conhecimento?

Como já é costume nesse blog, antes de qualquer coisa, vamos nos aprofundar um pouco mais no contexto do nosso tema. Uma excelente forma de começarmos é o conceito de evolução histórica do conhecimento, descrito pelo historiador Yuval Noah Harari em seu livro “Homo Deus”:

Conhecimento = Escrituras X Lógica: Para saber a resposta de alguma questão importante na Europa medieval, deveríamos ler as escrituras (geralmente de caráter religioso) e usar nossa lógica para compreender o significado do texto. Na prática, isso quer dizer que os sábios buscavam o conhecimento passando anos em escolas e em bibliotecas, lendo cada vez mais textos e aguçando sua lógica para entender e interpretar corretamente o que liam.

Conhecimento = Dados empíricos X Matemática: A Revolução Científica propôs uma fórmula muito diferente para o conhecimento. Se quisermos saber a resposta de alguma questão, precisamos reunir dados empíricos relevantes e depois usar ferramentas matemáticas para analisá-los. Na prática, isso significa buscar conhecimento passando anos em observatórios, laboratórios e expedições de pesquisa, a fim de reunir cada vez mais dados empíricos e de aguçar suas ferramentas matemáticas para interpretá-los corretamente.

Conhecimento = Experiências X Sensibilidade: A medida que os humanos adquiriram confiança em si mesmos, uma nova fórmula para alcançar o conhecimento se revelou. Se quisermos ter a resposta para qualquer questão, precisamos nos conectar com nossas experiências interiores e observá-las com a máxima sensibilidade. Na prática, isso significa que estamos em busca de conhecimento quando passamos anos reunindo experiências e aguçando nossa sensibilidade de modo a interpretá-las corretamente.

Observe que autor não usa a soma (+) em suas fórmulas, pois, dessa forma poderíamos adquirir conhecimento com o aumento de apenas um dos dois elementos. Usando a multiplicação (X), entendemos que se um deles for igual a zero, não se obtém conhecimento algum. Isso é muito importante pois implica na relação entre os dois elementos da equação. Experiências e sensibilidade, por exemplo, se incrementam reciprocamente num ciclo interminável:

  • Experiências são fenômenos subjetivos que incluem três ingredientes principais: sensações, emoções e pensamentos. “Em cada momento, minha experiência abrange cada sensação que tenho (calor, prazer, tensão, etc), cada emoção que sinto (amor, medo, raiva, etc) e quaisquer pensamentos que passem pela minha cabeça”.
  • Sensibilidade se adquire quando prestamos atenção às nossas sensações, emoções e pensamentos e permitimos que estes exerçam influência sobre nós. “Evidentemente, não devo permitir que qualquer brisa passageira me carregue com ela. Mas devo estar aberto a novas experiências e permitir que elas mudem minhas opiniões, comportamento e até mesmo minha personalidade”. 

Harari é categórico em afirmar que não somos capazes de experimentar nada em sua plenitude se não tivermos sensibilidade e, paradoxalmente, não somos capazes de desenvolver sensibilidade a menos que passemos por uma variedade de experiências. Afirma ainda que a sensibilidade não é uma aptidão abstrata que se possa desenvolver lendo livros ou ouvindo palestras. Trata-se de uma aptidão que só pode amadurecer e se consolidar quando aplicada na prática.

Dessa forma, o conhecimento é adquirido quando refletimos e nos adaptamos às sensações, emoções e pensamentos que acumulamos ao longo da vida.

“Não nascemos com uma consciências sob medida e pronta pra ser usada. No decurso da vida, magoamos pessoas e pessoas nos magoam, agimos compassivamente e outros demonstram compaixão para conosco. Se prestarmos atenção, nossa sensibilidade moral se aguçará, e essas experiências podem se tornar uma fonte de valioso conhecimento ético sobre o que é bom, sobre o que é correto e sobre quem realmente sou.

Assim, vemos a vida como um processo gradual de mudança interior, que parte da ignorância e chega à iluminação por meio de experiências. O mais alto objetivo de vida humanística é desenvolver completamente seu conhecimento mediante uma grande variedade de experiências intelectuais, emocionais e físicas”. 

Yuval Noah Harari

Como percebemos o mundo?

O desenvolvimento da nossa sensibilidade vai determinar como interpretamos as nossas experiências e, consequentemente, o tipo de conhecimento que vamos adquirir. Aprimorar conscientemente esse filtro pode ser a chave para respondermos questões e tomar decisões de forma autêntica.

No século XVIII, o filósofo alemão Immanuel Kant revolucionou o pensamento acerca do mundo, alegando que é “essencial nos lembrarmos de que a complexidade da experiência humana – com todas as suas tragédias, traumas, inspirações, paixões e infinitas possibilidades – nos aparece codificada pelas ‘lentes’ individuais por meio das quais a enxergamos“.

Tal pensamento influenciou o psiquiatra Fritz Perls, um dos fundadores da Gestalt-terapia. Sua abordagem afirmava que podemos alterar nossa percepção da realidade e que, na verdade, somos os únicos responsáveis por fazer isso, trata-se de algo que ninguém pode fazer por nós diretamente.

Quando compreendemos que a nossa percepção configura a nossa experiência, passamos a ver que os papéis que desempenhamos e as ações que realizamos são ferramentas que podemos utilizar de modo consciente para modificar a realidade. O controle sobre nosso próprio ambiente psíquico nos confere poder sobre como interpretar o ambiente e como reagir a ele.

Perls alegava que algumas atitudes simples poderiam ajudar o indivíduo a assumir a responsabilidade pela percepção da realidade. Como, por exemplo, substituir frases do tipo “não posso fazer isso” por “não quero fazer isso”, ou “eu preciso ir embora” por “eu quero ir embora”.

“Conforme aprendemos a assumir a responsabilidade por nossas experiências, desenvolvemos indivíduos autênticos, livres de influências da sociedade. Experimentamos também uma sensação de poder ao perceber que não estamos à mercê de coisas que ‘simplesmente acontecem’. Qualquer sentimento de vitimização esfarela-se quando entendemos que aquilo que aceitamos para nossas vidas é uma opção”.

Fritz Perls

Aplicação prática do autoconhecimento

Adquirir autoconhecimento não se trata apenas de uma busca espiritual ou coisa parecida. Pelo contrário, ele resulta em aplicações práticas, como melhores decisões e a descoberta de novas possibilidades.

Uma das melhores referências que tenho sobre essa correlação é a de Ram Charan. Segundo ele, um profissional que tenha autoconhecimento dispõe de uma firmeza emocional que o diferencia dos demais em cinco qualidades-chave:

  1. Autenticidade: Não se trata apenas de um termo psicológico, a autenticidade significa muito mais que você pode imaginar: você é real, não uma imitação. Sua pessoa exterior é a mesma que sua pessoa interior, não uma máscara que você usa. Você é o que faz ou diz. Somente a autenticidade cria confiança, pois mais cedo ou mais tarde as pessoas descobrem os dissimulados.
  2. Consciência de si próprio: “Conhece-te a ti mesmo” é um conselho tão antigo quanto as montanhas e é o cerne da autenticidade. Quando você se conhece, você se sente à vontade com seus pontos fortes e não derrotado pelas suas deficiências. Você conhece o lado obscuro de seu comportamento e bloqueios emocionais e desenvolve um modus operandi para lidar com eles. A consciência de si próprio lhe dá a capacidade de aprender com seus erros ou sucessos e permite que você continue crescendo.
  3. Autocontrole: Quando você se conhece, consegue se controlar. Você pode manter seu ego sob controle, assumir a responsabilidade por seu comportamento, adaptar-se à mudança, aceitar novas ideias e aderir padrões de integridade e honestidade sob todas as condições. Autocontrole é fundamental para a verdadeira autoconfiança.
  4. Autoconfiança: Pessoas autoconfiantes contribuem mais para o diálogo. Sua segurança interna lhes dá uma metodologia para lidar com o desconhecido e para relacioná-lo às ações necessárias. Elas têm consciência de que não sabem tudo; são curiosas e encorajam o debate para produzir pontos de vista alternativos. Por isso, quando se deparam com um problema, não precisam lamentar, esconder a vergonha ou se sentirem vítimas.
  5. Humildade: Quanto mais você puder conter seu ego, mais realista você será sobre seus problemas. Você aprende a ouvir e a admitir que não sabe todas as respostas. Sabe que pode aprender com qualquer um, a qualquer momento. Seu orgulho não o prejudica quando você precisa obter informações para atingir melhores resultados e não impede que você compartilhe o crédito.

“Como você desenvolve essas qualidades? O aprendizado real vem de prestar atenção à experiência. À medida que as pessoas refletem sobre suas experiências os bloqueios caem por terra e a força emocional se desenvolve. À medida que você ganha experiência na autoavaliação, suas percepções se transformam em melhoria que amplia sua capacidade pessoal. Tal aprendizado não é um exercício intelectual. Requer tenacidade, persistência e envolvimento diário. Requer reflexão e mudança de comportamento. Mas, pela minha experiência, uma vez que a pessoa entra nos eixos, sua capacidade de crescer é quase ilimitada.”

Ram Charan

Para Finalizar

Concluímos até aqui que, para adquirir autoconhecimento, precisamos antes de qualquer coisa, viver. E, como vimos no post Equilíbrio, viver a vida em sua plenitude, nos bons e maus momentos. No entanto, esta é apenas uma parte da equação, precisamos refletir sobre nossas experiências e evoluir com elas.

Devemos ir além e rever constantemente nossos próprios valores, nos transformar em quem realmente somos e entender que tudo o que faz parte do mundo externo é apenas uma versão de como nós o enxergamos. A realidade é pessoal e intransferível.

Dessa forma, teremos autoconhecimento suficiente para, entre muitas outras coisas, saber a diferença entre o que podemos ou não podemos mudar. A serenidade e a coragem cuidam do resto.

 

Referências Autoconhecimento: Execução, Larry Bossidy e Ram Charam, 2010. O Livro da Psicologia, Diversos autores, 2012. Homo Deus, Yuval Noah Harari, 2016.

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