Filosofia da Inovação

Email this to someoneTweet about this on TwitterShare on LinkedInShare on FacebookShare on Google+

Como a filosofia pode determinar a inovação

A Inovação já conquistou o seu espaço, dentre os temas mais discutidos no mundo dos negócios. Seja inovação incremental ou disruptiva, estamos sempre buscando alternativas para sermos mais eficientes, competitivos ou, até mesmo, pioneiros em algum mercado.

Descobrimos no post Ciência da Inovação, que, para a inovação acontecer, precisamos de um método – inovação e ciência, portanto, caminham juntos e, sem elas, não faríamos sentido.

Porém, há um terceiro, e importante, agente nessa dinâmica: tanto a inovação quanto a ciência surgem de uma indagação, uma pergunta feita por uma mente curiosa em busca da verdade – e esse é o papel central da filosofia.

Portanto, se quisermos entrar no jogo da inovação para ganhar, precisamos, antes de qualquer coisa, aprender a fazer as perguntas certas. Por isso, nada melhor do que consultar os maiores especialistas no assunto.

O processo filosófico

Questionar é o atributo de um filósofo, porque não há outro início para a filosofia além desse” – Platão

O Livro da Filosofia, um trabalho de diversos autores, organizado pela editora Dorling Kindersley,  nos dá uma ótima introdução ao tema.

Segundo a obra, a filosofia não é apenas atividade de pensadores brilhantes e excêntricos, como popularmente se pensa. Nós, humanos, somos criaturas naturalmente curiosas e não conseguimos deixar de fazer perguntas sobre o mundo e o nosso lugar nele.

Também somos equipados com uma capacidade intelectual poderosa, que nos permite tanto raciocinar como apenas divagar. Ainda que não percebamos, ao raciocinar, praticamos o pensamento filosófico.

Uma concepção popular equivocada é aquela do filósofo em isolamento chegando sozinho às suas conclusões, pois isso dificilmente acontece. Novas ideias surgem por meio da discussão, investigação, análise e crítica das ideias alheias.

O filósofo que apresenta suas ideias ao mundo é sujeito a receber comentários que começam com “Sim, mas…” ou “E se..”, em vez da aceitação irrestrita. Na realidade, os filósofos tendem a discordar ferozmente uns dos outros sobre todos os temas.

Assim, esses pensadores arquitetaram uma forma de assegurar que suas ideias tivessem validade. O que surgiu do pensamento deles foi a lógica – técnica de raciocínio gradualmente aperfeiçoada ao longo do tempo.

Como grande parte da filosofia, a lógica tem conexões íntimas com a ciência – a matemática, em particular. A estrutura básica do argumento lógico, iniciado com uma premissa e construído por meio de uma série de passos até a conclusão, é a mesma de uma demonstração matemática.

Porém, a lógica filosófica, diferentemente da matemática, expressa-se em palavras, não em números ou símbolos, e está sujeita às ambiguidades e sutilezas inerentes à linguagem.

Muitas vezes, a relação entre ciência e filosofia é de intercâmbio, com ideias de um lado informando o outro. De fato, há todo um campo na filosofia que estuda o pensamento por trás dos métodos e práticas científicas.

O desenvolvimento do pensamento lógico influenciou o modo como a matemática evoluiu, até se tornar a base para o método científico, que se vale da observação sistemática para explicar o mundo.

O autoquestionamento e a curiosidade são atributos humanos, assim como a excitação da exploração e a alegria da descoberta.  Acima de tudo, temos a satisfação de chegar a crenças e ideias por meio do nosso próprio raciocínio e não por imposição da sociedade, da religião, da escola ou mesmo dos filósofos consagrados.

Curiosidade

“Não tenho nenhum talento especial, apenas uma ardente curiosidade”  – Albert Einstein

Esse atributo humano, que nos faz romper as crenças mais enraizadas, é o alimento da filosofia, assim como da ciência e da inovação. Sem a curiosidade, não veríamos tanta evolução em nossa sociedade. Uma grande prova disso é o autor da frase acima.

Admito que me surpreendi bastante ao me deparar com a citação de Einstein. Primeiro, por observar um dos cientistas mais importantes da nossa história afirmar não ter talentos especiais e, segundo, por conceber a curiosidade como a característica pessoal que o fez mudar nosso entendimento do mundo.

De acordo com seu mais relevante biógrafo, Walter Isaacson, essa característica talvez seja o melhor ponto de partida, quando analisamos todos os elementos da genialidade de Einstein:

“Lá está ele, um menino doente, acamado, tentando descobrir por que a agulha da bússola aponta para o norte. A maioria de nós se lembra de ver uma agulha assim girar até parar no ponto certo; mas poucos de nós perseguem com paixão as perguntas: como funciona um campo magnético? Com que rapidez ele pode se propagar? Como pode interagir com a matéria?”

Isaacson aprofunda seu relato: a curiosidade, no caso de Einstein, não vinha apenas do desejo de questionar o misterioso. Mais importante: vinha de uma sensação infantil de maravilhamento que o impelia a questionar os conceitos bem conhecidos. E como ele disse certa vez: “O adulto comum nunca força sua cabeça a pensar nesse tipo de coisa.

Para Einstein, existe um propósito para a criatividade, ela existe porque cria mentes que questionam; e isso gera uma apreciação pelo universo, que, para ele, era equivalente ao sentimento religioso. “A curiosidade tem sua própria razão de existir“, explicou certa vez.

“Não podemos deixar de ficar deslumbrados ao contemplar os mistérios da eternidade, da vida, a maravilhosa estrutura da realidade”.

Albert Einstein

Filosofia da Inovação na prática

“É melhor ser um Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito” – John Stuart Mill

Concluindo que a curiosidade antecede qualquer iniciativa de inovação, vamos agora tentar encontrar algumas lições da filosofia, utilizando o livro Antologia Ilustrada da Filosofia, de Ubaldo Nicola, como base para aperfeiçoarmos nosso processo de busca por soluções.

Confesse!

Essa advertência vem do filósofo japonês, Hajime Tanabe. Influenciado por pensadores como Sócrates e o monge budista Shinran, Tanabe afirmava que, antes de qualquer questionamento, precisamos admitir (ou, em suas palavras, confessar) que não sabemos as respostas e nossos poderes racionais são limitados.

Foi o que Einstein fez ao confessar não ter nenhum talento especial. Se nos deixarmos levar por alguma noção de certeza sobre qualquer assunto, nossas alternativas são imediatamente reduzidas. Admitir que não sabemos, traz consigo a liberdade para encontrarmos a resposta certa.

O ceticismo, movimento filosófico iniciado por Pirro, reforça essa necessidade ao sustentar “a impossibilidade de chegar-se a qualquer juízo inopinável, universal, indiscutível’. De fato, dada a universal incerteza que envolve a natureza do mundo e do homem, nenhuma proposição pode ser afirmada sem que também seja possível encontrar provas da proposição contrária.

Daí, decorre que a única atitude correta a ser assumida pelo filósofo e também por inovadores é não ter opiniões imutáveis, assumindo a suspensão de qualquer discurso afirmativo – em grego, epoché.

Husserl, filósofo do século XIX, coloca um objetivo parcialmente semelhante à proposta antiga da epoché. Afirma que é preciso dar-se conta de que mesmo os conhecimentos mais desinteressados e inocentes são sempre condicionados pelos nossos pré-conceitos – aquela massa de experiências, convicções, recordações e fantasias que formam todo sujeito.

Apenas por meio de um metódico exercício de dúvida, assumindo hábitos mentais distantes das exigências da vida cotidiana, é possível chegar à verdade. O objetivo é acercar-se do mundo como se fosse a primeira vez, vendo os objetos que o compõem de modo verdadeiramente ingênuo, sem o filtro da própria experiência.

Conteste!

A verdade é um fenômeno arbitrário, inconstante, culturalmente relativo e historicamente moldado.” – Ken Wilber

Se assumirmos essas premissas, temos a constatação de que nada é absoluto, nos restando, apenas, a possibilidade de questionar tudo a nossa volta.

René Descartes contribuiu com essa noção, defendia a necessidade de que, ao menos uma vez na vida, duvidemos, tanto quanto possível, de todas as coisas – e isso vale desde o senso comum até nossas próprias crenças.

Protágoras refletiu sobre a nossa tendência de explicar o mundo, baseado em informações limitadas, afirmava que “o homem é medida de todas as coisas“, ou seja, a experiência individual é o único critério da verdade para o indivíduo. Assim, não existem leis eternas e verdades objetivas, somente opiniões.

O testemunho extraído de Teeteto , de Platão, é uma apologia ao discurso de Protágoras:

“Para alguém que está doente, os alimentos parecem e são amargos; ao contrário, para alguém que está bem, eles são e parecem agradáveis. Mas não é lícito inferir disso que entre esses dois um é mais sábio do que o outro.”

Arthur Schopenhauer acrescentou a isso que “todo homem aceita os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo.

Então, cada um de nós tem visão limitada do mundo, já que as percepções são construídas a partir da informação adquirida por um conjunto limitado de sentidos.

O criticismo oferece uma solução para esse dilema. Atitude filosófica, inaugurada por Kant, que consiste em submeter à crítica os resultados da própria atividade mental e de toda experiência humana, a fim de estabelecer os seus limites, a sua validade e a sua possibilidade.

O pressuposto é que a mente deve vigiar a si mesma e inspecionar os próprios produtos, de modo a manter sob controle determinadas tendências naturais da psique.

Por isso, mesmo não existindo qualquer verdade absoluta, a tarefa educativa do filósofo parece essencial.

Pierce afirma que devemos confiar no método científico, o único que, submetendo os próprios resultados a uma contínua verificação, renuncia à infalibilidade e progride, se autocorrigindo:

“Portanto, para satisfazer as nossas dúvidas, é necessário que seja encontrado um método em virtude do qual as nossas crenças possam ser causadas não por fatores humanos, mas por alguma uniformidade externa, por algo sobre o qual nosso pensamento não tem efeito.”

A aplicação desse conceito no campo da inovação é bastante clara, não devemos nos resumir a aceitar as coisas como elas são, sem antes refletir, ao menos minimamente, se existe uma alternativa melhor.

Geralmente, não questionamos o trivial por acreditar que as coisas são como são porque alguém já pensou nisso antes. Então, já que as reflexões de Einstein nos ajudaram bastante até aqui, nada melhor do que relembrar uma outra frase dele para encerrar esse tópico: “A fé leviana na autoridade é o pior inimiga da verdade. Vida longa à insolência!

Calcule!

“Todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer, e a verdade está no mundo à nossa volta.” – Aristóteles

Parmênides propôs uma contraposição entre verdade (alétheia) e opinião (doxa), que se tornaria um tema clássico do pensamento ocidental:

  • Opinião é a crença que se baseia em dados sensíveis e perceptíveis, mesmo quando estes parecem certos e evidentes;
  • Verdade é a convicção baseada em argumentações racionais, mesmo quando essas argumentações parecem em total oposição às evidências sensíveis.

A busca por essas argumentações racionais foi amplamente debatida por muitos pensadores:

O filósofo grego Pitágoras identificou o arché – o ponto de partida, fundamento e causa – no número. Cada figura geométrica e, portanto, cada corpo existente pode ser pensado como uma quantidade finita de elementos base unitários: os números.

Segundo Pitágoras, “Tudo é número e tudo pode ser quantificado por números.

René Descartes foi outro pensador que buscou dar à filosofia a certeza da matemática, sem recorrer a qualquer tipo de dogma ou autoridade, estabelecendo um fundamento firme e racional para o conhecimento.

Afirmou, também, que “todas as ciências estão de tal modo relacionadas entre si que é muito mas fácil aprendê-las todas de uma vez do que separar umas das outras”. Muito diferente do que a educação formal das últimas décadas, que incentiva a especialidade. O ecletismo, ou a atual e cada vez mais aclamada Visão Sistêmica, tem papel de destaque na filosofia.

Não podemos deixar de citar um dos mais importantes argumentos racionais e conceito central de todo o pensamento científico, o princípio de causa-efeito: determinados eventos podem ser previstos como consequência necessária das causas que os produziram.

Hoje em dia, na Era Pós Digital, não podemos sequer considerar grandes decisões ou descobertas baseadas apenas na opinião, sem a utilização de dados e argumentos lógicos para validá-las ou resolver um problema sem identificar a causa raiz.

Nos resta, portanto, testar aquela ideia que surgiu em um instante, antes de afirmar que ela é infalível. Lembre-se da máxima do mundo corporativo atual e a aplique ao seu processo de inovação: “O que não pode ser medido, não pode ser gerenciado.

Para Finalizar

Separei alguns conceitos aprendidos com essa pesquisa, que pretendo aplicar ou reforçar na minha busca por inovação:

  • Faça as perguntas certas e aprimore sua capacidade de encontrar respostas.
  • A filosofia é um trabalho em equipe.
  • Discorde das ideias até que não seja mais possível.
  • A observação sistemática tem papel fundamental na inovação.
  • Deixe seu lado adulto de lado por um instante, aprenda a curiosidade com as crianças e se deslumbre com as descobertas.
  • Admita sua ignorância e limitações.
  • Nada é inquestionável ou indiscutível.
  • Faça epoché e se livre dos pré-conceitos.
  • Conteste o senso comum, a autoridade e suas próprias crenças.
  • Separe a verdade (alétheia) da opinião (doxa) utilizando argumentos lógicos.
  • Identifique a causa raiz (arché) e quantifique tudo.
  • Vigie sua mente, mitigue o viés cognitivo.
  • Submeta suas ideias à verificação contínua.
  • Desenvolva a Visão Sistêmica.
  • Domine o método – a dinâmica de causa-efeito é decisiva para o pensamento científico e inovação.
  • Confesse, Conteste e Calcule!

Certamente, a filosofia tem muito mais a nos ensinar sobre inovação. Esse post discute apenas uma gota de todo o oceano de conhecimento que podemos explorar e aplicar nas nossas rotinas. Além disso, trata-se de uma pesquisa feita por uma mente curiosa, mas com grandes limitações de conhecimento sobre o tema.

Muitos dos filósofos citados tiveram suas ideias questionadas no decorrer da história, mas tudo isso, como vimos, faz parte do processo filosófico. Vale, cada um de nós, nos aprofundarmos na pesquisa dos conceitos que mais chamaram a atenção.

Afinal, a filosofia não ensina a verdade, mas ajuda o indivíduo a descobri-la sozinho. Não oferece soluções, mas um método para raciocinar a partir de si mesmo. A verdade é uma conquista pessoal e a educação é sempre autoeducação, um processo de autoconhecimento e amadurecimento interior que pode ser estimulado, mas não provocado, a partir do exterior.

O texto abaixo foi extraído de Alcebíades I, de Platão:

  • Sócrates – Ora, poderíamos conhecer a arte de melhorar a qualidade dos calçados, se não conhecemos os sapatos?
  • Alcebíades – Não.
  • Sócrates – E, assim, tampouco a arte de aprimorar a feitura de anéis, se não conhecêssemos o anel.
  • Alcebíades – Verdade.
  • Sócrates – Agora mais um passo. Poderíamos conhecer a arte de melhorar o próprio homem, se não soubéssemos quem somos?
  • Alcebíades – Impossível!

 

Referências: Livro da Filosofia, diversos autores, 2010. Antologia ilustrada de Filosofia, Ubaldo Nicola, 2005. Einstein, Sua Vida, Seu Universo, Walter Isaacson, 2007

Quem leu esse post, acessou também:

Email this to someoneTweet about this on TwitterShare on LinkedInShare on FacebookShare on Google+

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *