A Arte da Inovação

A filosofia compreende, a ciência explica e a arte humaniza

Em 2015, no post Ciência da Inovação, buscamos entender como o método científico poderia nos ajudar a aprimorar nossos processos de inovação.

No início desse ano, avançamos um pouco mais nesse estudo. Afinal, a ciência pode nos auxiliar em encontrar respostas, mas a pergunta que vem antes é especialidade de outro ramo do conhecimento humano, a Filosofia da Inovação foi o tema do segundo post.

Assim, com os dois textos, aprendemos a importância de questionar e responder da melhor forma possível. Mas ainda ficou uma ponta solta para ligarmos a inovação aos principais assuntos da consciência humana.

Ainda precisamos aprender como tangibilizar ideias, transformar conceitos abstratos em soluções práticas e traduzir emoções para o mundo sensível. Portanto, hoje vamos continuar essa jornada tentando entender como a inovação e a arte estão ligadas.

…e eu também sei pintar

Desde que terminei de escrever o primeiro post, sobre Ciência, sabia que escreveria sobre Filosofia e, então, viria o maior desafio, falar sobre Arte. O que não sabia era como faria isso. Afinal, sempre li bastante sobre os dois primeiros assuntos, mas não sabia nem por onde começar o terceiro.

Até que, ao escrever o texto sobre o centésimo post, percebi que tanto a primeira quanto a última publicação desse blog falavam de um ícone do mundo da arte, Leonardo da Vinci. Uma figura histórica que passei a admirar ainda mais após ler sua biografia (de Walter Isaacson) e perceber o quão genial e inovador ele foi.

Por isso, para entender a relação entre a arte e a inovação, nada melhor do que investigar o processo criativo de um dos maiores gênios da nossa história.

Autoeducação

“Talento é acertar um alvo que ninguém acerta. Genialidade é acertar um alvo que ninguém vê.” – Arthur Schopenhauer.

Não é preciso fazer apresentações sobre a obra de Leonardo da Vinci, muitos de seus trabalhos são amplamente conhecidos, como o Homem Vitruviano, A Última Ceia ou a Mona Lisa. Mas, o que realmente nos interessa aqui é saber como ele se tornou o homem capaz de fazer trabalhos nunca antes vistos.

Uma primeira pista é o fato que desde sua infância, exceto por algumas lições de matemática, Leonardo não recebeu educação formal, ele foi um autodidata.

Aprendeu latim por conta própria, por exemplo, e acumulou uma invejável coleção de livros ao longo da vida.

Sua biblioteca incluía obras sobre aparatos militares, agricultura, música, cirurgia, saúde, ciência aristotélica, física árabe, quiromancia, biografias de filósofos, ensaios científicos, poesia, literatura, arquitetura, religião e matemática.Seu apetite por absorver informações das obras que lia era voraz e abrangente.

Além disso, Leonardo também via na colaboração uma outra fonte de conhecimento. Gostava de buscar respostas com especialistas de cada assunto. Em seus cadernos, anotava suas dúvidas (muitas delas bem peculiares) e os questionamentos que faria a conhecidos, por exemplo:

  • Perguntar ao pessoal de Benedetto Portinari de que forma conseguem andar sobre o gelo nos Flandres;
  • Perguntar ao maestro Antonio como os morteiros são posicionados nos baluartes durante o dia e à noite;
  • Achar um mestre em hidráulica e lhe pedir para me ensinar a consertar uma eclusa, um canal e um moinho à moda lombarda;
  • Perguntar ao maestro Giovannino como a torre Ferrara é murada sem que haja brechas.

Com essa fome por aprendizado multidisciplinar, foi capaz de caminhar pelos mais diversos campos do conhecimento humano.

No entanto, a sua busca por conceitos teóricos não foi a única nem a principal saída para preencher sua lacuna educacional:

Com frequência, ele ficava na defensiva a respeito de ser um ‘homem iletrado’, como se referia a si mesmo com uma dose de ironia. Mas também se orgulhava do fato de a ausência de uma educação formal tê-lo feito se transformar num discípulo da experimentação e da experiência.” 

Disscepolo Della Sperientia

Aquele que pode ir à nascente de um rio não vai a um jaro de água.” – Leonardo da Vinci

Sem a educação formal, Leonardo acabou sendo poupado de ser treinado a aceitar os empoeirados dogmas medievais e paradigmas que haviam se acumulado ao longo dos séculos:

“Sua falta de reverência às autoridades e disposição a sempre questionar o conhecimento recebido o levariam a elaborar uma abordagem empírica para a compreensão da natureza que antecipou em mais de um século o método científico desenvolvido por Bacon e Galileu.”

A descrição de Isaacson sobre o método de Leonardo é um grande passo para alcançarmos o objetivo desse post. Afinal, ele liga o que discutimos em Ciência da Inovação, ao citar o método científico, Bacon e Galileu, e também liga Filosofia da Inovação, ao comentar o questionamento da autoridade, que na ocasião foi ilustrada por Albert Einstein.

Isaacson continua, “Seu método era baseado na experimentação, na curiosidade e na habilidade de se admirar com fenômenos nos quais o restante de nós dificilmente presta atenção após a infância.”

Me causa uma certa euforia ler essa passagem, afinal, tanto tempo depois, após tanta coisa ter acontecido, é exatamente esse o método que vemos como o ideal para a Era Pós-digital. 

As habilidades que consideramos essenciais para lidarmos com as complexidades do mundo atual e com o que vem pela frente são as mesmas que Leonardo naturalmente possuía séculos atrás, e serviriam de modelo para os renascentistas.

É como se o mundo “moderno” das startups e das metodologias ágeis fossem uma releitura do Renascimento.

Observação e Prototipagem

“Minha dedicação à observação e à coleta de dados é tão notável quanto possível.” – Charles Darwin

Além da autoeducação, experimentação e admiração infantil, Leonardo também possuía um desejo intenso e uma habilidade única de observar as maravilhas da natureza.

“Ele se forçava a perceber formas e sombras com uma precisão impressionantes. Era particularmente bom em captar movimentos, desde o bater de asas até emoções se espalhando por um rosto.”

Era sobre essa base que conduzia seus experimentos, alguns somente na imaginação, outros com desenhos, reproduzindo o que observara, ou ainda utilizando objetos como protótipos.

“Primeiro devo fazer algumas experiências e só então prosseguir”, escreveu em uma de suas anotações, “já que minha intenção é a de consultar primeiro a experiência e depois, através do raciocínio, demonstrar por que tal fenômeno ocorre dessa forma.”

Em suas obras, Leonardo ponderava, por meio de seus esboços, processos que chamava de componimento inculto, uma composição não refinada, que ajudava a trabalhar as ideias por um processo intuitivo.

Segundo historiadores, haviam outras versões da maioria de suas obras, feitas ao mesmo tempo que as originais e refletem as soluções alternativas que Leonardo estava imaginando.

Observação, experimentação, protótipos… seria Leonardo da Vinci o primeiro (e maior) design thinker que se tem conhecimento? Antes de responder, veja essa outra anotação que fez em seu caderno:

“Conforme você andar pela cidade, observe atentamente, faça anotações e analise as circunstâncias e o comportamento dos homens enquanto eles falam ou discutem, ou riem, ou partem para as vias de fato.”

Assim, ele também tentava compreender o que as pessoas estavam pensando e sentindo, exercitando a última peça que faltava para respondermos a pergunta acima, a empatia.

Zibaldone

“Não é porque as coisas são difíceis que não ousamos. É porque não ousamos que elas se tornam difíceis. – Sêneca

Esse hábito de fazer anotações é outro fator relevante para entendermos um pouco mais o processo criativo de Leonardo. Afinal, observar o mundo mas não levar nenhum insumo consigo pode não ser muito eficiente.

Em uma dessas anotações, ele recomenda aos jovens artistas a prática de andar pela cidade procurando pessoas para usar como modelos e registrar as mais interessantes em um caderno de bolso.

“Faça um esboço delas com traços ligeiros em um caderninho que você deve carregar sempre consigo. As posições das pessoas são tão infinitas que a memória é incapaz de gravar todas elas, e é por isso que você deve usar esses esboços como guias.”

Além do conteúdo artístico, os caderninhos pendurados no cinto tornaram-se repositórios de todas as suas numerosas paixões e obsessões:

“Como engenheiro, ele aperfeiçoou suas habilidades técnicas desenhando mecanismos com os quais se deparava ou que imaginava. Como produtor de espetáculos, fazia croquis para figurinos, criava engenhocas para mover palcos e cenários. Muitas páginas com rascunhos e passagens para tratados acerca de assuntos como voo, água, anatomia, arte, cavalos e mecânica.

O registro de uma gama tão aleatória de pensamentos era uma prática que se tornara popular na Itália Renascentista. O caderno de notas e rascunhos na época era chamado de zibaldoneMas, em termos de conteúdo, os cadernos de Leonardo não tinham nada a ver com o que o mundo já vira:

“Seus cadernos foram corretamente chamados de ‘o mais espetacular tributo aos poderes humanos da observação e imaginação já documentados em papel’.”

Esses cadernos foram desmembrados e separados em 25 códices ou coleções e hoje estão espalhados pelo mundo, como o Códex Atlanticus, que está na Biblioteca Ambrosiana em Milão, ou o Códex Leicester, que agora pertence a Bill Gates.

No mundo atual, todos nós temos um zibaldone à nossa disposição, o tempo todo, e poderíamos fazer grande uso dessa ferramenta. Quem sabe o bloco de notas dos smartphones seja uma das principais fontes dos livros de história no futuro.

Curiosidade

“Por quê? Por quê? Por quê?” – Zequinha

Além de demonstrar uma poderosa ferramenta, seus zibaldones deixam claro outro aspecto de sua personalidade, a curiosidade irrestrita.

Para ilustrarmos essa característica, vale um exemplo. Alimentado por sua curiosidade, em 1508, foi conversar com um homem que alegava ter mais de cem anos e nunca ter ficado doente. Algo único para época.

Mas, a “hora” do idoso já estava chegando e pouco tempo após o encontro, ele faleceu. Na tentativa de apaziguar sua curiosidade e entender o que esse homem tinha de diferente, Leonardo dissecou o cadáver.

“Para ter uma ideia do contexto, podemos imaginar Leonardo, então com cinquenta e poucos anos e no auge da fama, como pintor, passando algumas noites em um velho hospital perto de casa, conversando com pacientes e dissecando corpos.”

Esse é um exemplo da curiosidade incansável de Leonardo, que pode até atordoar quem não esteja acostumado a ela. Com essa prática (estima-se mais de 20 dissecações), Leonardo preencheu cadernos inteiros sobre anatomia do corpo humano, músculos, órgãos e ossos foram catalogados e ricamente ilustrados.

Foi assim, ao compreender como os músculos e nervos da face funcionam, que conseguiu reproduzir com tanta perfeição o sorriso mais enigmático da história, o de Mona Lisa.

A sua curiosidade, além de não deixá-lo aceitar um “por que sim” como resposta, fez de Leonardo um questionador irreparável dos mais diversos temas.

A mesma característica que o estimulou a acumular uma biblioteca multidisciplinar fez dele um dos maiores ecléticos que se conhece até hoje. Suas realizações foram espantosamente diversas.

Além de sua arte, Leonardo descobriu um novo órgão do corpo humano, que só foi confirmado séculos depois, projetou a cidade ideal, desenhou máquinas para mergulho, desvio de rios e drenagem de pântanos, contribuiu para o estudo da física, matemática e muitos outros temas.

Foi justamente essa disposição em investigar assuntos tão diferentes que se baseava seu método de compreender o mundo. Em vez de utilizar ferramentas matemáticas abstratas para extrair leis teóricas da natureza (como Copérnico, Galileu e, mais tarde, Newton fizeram), Leonardo se baseava em um método mais rudimentar:

“Ele era capaz de identificar padrões na natureza e teorizá-los por meios de analogias. Com suas aguçadas habilidades de observação que se estendiam por várias disciplinas, ele discernia padrões recorrentes.”

As conexões que fazia entre disciplinas serviam de guia para suas investigações, e os padrões que identificava eram muito mais do que simples orientações para seus estudos: “Ele as tratava como revelações de verdade essenciais, manifestações da maravilhosa unidade da natureza.”

Criatividade

“Criatividade que satisfaz e reafirma seu ponto de vista é entretenimento. Criatividade que desafia e muda seu ponto de vista é arte.” – Neil deGrasse Tyson

Sua habilidade excepcional em ligar a teoria, aprendida em livros ou com especialistas, e a prática, adquirida com a experiência, fizeram dele um exemplo fundamental de como a observação intensa, a curiosidade fanática, a realização de experimentos, a disposição para questionar os dogmas e o talento para identificar padrões entre disciplinas podem levar a grandes saltos no conhecimento humano.

Mas isso nunca fez dele um acadêmico. Quando teoria e prática não lhe traziam um consenso ou entravam em conflito, Leonardo sempre esteve disposto a tentar uma nova abordagem.

A disposição para renunciar ideias preconcebidas foi crucial para outra característica especial, a criatividade, e pode nos ajudar a compreender melhor a sua obra.

Leonardo alegava que a pintura não era apenas uma arte, mas também uma ciência. Para reproduzir objetos tridimensionais em uma superfície plana, por exemplo, o pintor precisava saber perspectiva e óptica, duas ciências baseadas na matemática.

Porém, a pintura requer ainda outro salto cognitivo: “pintar exigia não apenas o intelecto, mas também imaginação” – era esse elemento de fantasia que tornava a pintura criativa. 

Para Leonardo, a pintura “não englobava apenas as obras da natureza, mas também as coisas infinitas que a natureza jamais criou.

Ao exaltar a interação de sua arte com a ciência, ele teceu um argumento que se tornou crucial para entender sua genialidade: “a verdadeira criatividade envolve a habilidade de combinar observação com imaginação e, desso modo, borrar os limites entre a realidade e a fantasia.”

De forma geral, essa impossibilidade em compreender os limites reais de suas fantasias já foi vista como um dos principais defeitos de Leonardo, porém:

“…para ser um verdadeiro visionário, é preciso estar disposto a passar dos limites e fracassar algumas vezes. A inovação exige um campo de distorção da realidade. As coisas que ele imaginou para o futuro aconteceram, mesmo que algumas tenham levado séculos. Às vezes a fantasia é o caminho para realidade.

Foi a criatividade – a habilidade de aplicar a imaginação ao intelecto – que o diferenciou das pessoas que são apenas extraordinariamente inteligentes e fez de Leonardo da Vinci um gênio.

Porque a sopa está esfriando…

“Quando era garoto, li algo sobre a importância de pessoas que eram capazes de permanecer na intersecção das humanidades com as ciências e decidi que era isso que eu queria fazer.” – Steve Jobs

O processo criativo de Leonardo é complexo, mas algumas ferramentas que citamos aqui são essenciais para compreendermos um pouco de sua genialidade.

A autoeducação, a observação e prototipagem, zilbadone, a curiosidade e a criatividade são peças-chave para entendermos como ele misturou ciência e arte, para criar algumas das mais valiosas obras de toda humanidade.

Perceber uma íntima relação de seus processos com os modelos mais modernos de inovação nos faz vibrar e, ainda, traz outra inquietação. Será que estamos encarando a inovação da melhor maneira?

Pode ser que, para lidar com o futuro, precisemos olhar mais para o passado. Para sermos mais modernos, aprender com os antigos. Pode ser também que, para criar valor de verdade, precisemos garantir que a arte renasça constantemente, tornando a inovação cada vez mais humana.

Afinal, o lugar onde ciência, filosofia e arte se encontram é onde está a inovação que realmente importa.

 

Referências: Leonardo da Vinci, Walter Isaacson, 2017.

2 comentários em “A Arte da Inovação”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *