Funcionários Tóxicos – Bad Apples

Pessoas que contaminam todo o time

No post Chefes Agressivos, discutimos como o comportamento equivocado de um líder pode contaminar todo o ambiente de uma organização e até afetar a saúde de seus colaboradores.

Hoje em dia, é muito comum encontrar exemplos na mídia, em cursos ou na literatura sobre o tema. A verdade é que os líderes tóxicos estão sob ataque e seu reinado parece estar ameaçado. Ótimo!

Mas, quando pesquisei para fazer aquele post ou, mesmo hoje, quando leio algo sobre o assunto, penso no outro lado da moeda. Afinal, seria ironia supor que a toxicidade está limitada a profissionais em cargos de liderança.

Por isso que hoje vamos falar dos Funcionários Tóxicos. Aqueles que contaminam o ambiente, mas muitas vezes garantem sua permanência na empresa por algum outro fator.

Os Bad Apples estão muito mais presentes do que você imagina.

Perigo!

As organizações estão cheias de pessoas que, simplesmente, não são boas para o trabalho que realizam. Mas, felizmente, isso ainda pode ser administrado com algumas técnicas de liderança ou coaching.

O problema dos Funcionários Tóxicos é diferente, eles são ótimos em extrair aquilo que uma equipe tem de pior, desde um simples “corpo mole”, passando pelo velho mimimi e até comportamentos fraudulentos. Por isso, você deve conter a contaminação antes que ela se espalhe.

Teoria das Janelas Quebradas, do criminologista George Kelling e do cientista político James Q. Wilson, diz o seguinte: “o sentimento de respeito mútuo e as obrigações de civilidade são reduzidos por ações que parecem sinalizar que ‘ninguém se importa‘”. 

Recebeu esse nome porque os autores constataram que em bairros onde uma janela é quebrada e deixada sem conserto, as outras logo serão arrebentadas também.

“A teoria das janelas quebradas sugere que é um erro permitir que até um pequeno mal ocorra ou persista porque isso sinaliza que ninguém está olhando, ninguém se importa e ninguém vai impedir as pessoas de fazer coisas ainda piores.”

Robert Sutton e Huggy Rao

Um ótimo exemplo aconteceu em 1994, quando Rudy Giuliani, então prefeito de Nova York, adotou programas de “tolerância zero” para pequenos delitos. Coisas que antes eram praticamente ignoradas, como pular a catraca do metrô, urinar em local público e pichações, passaram a ser duramente inibidas pelas forças policiais.

O que aconteceu de surpreendente e em pouco tempo é que não foram apenas esses delitos que reduziram drasticamente, mas crimes de todos os tipos começaram a cair na cidade.

Embora possa não ser o único fator, eliminar o efeito das Janelas Quebradas teve um peso significativo nessa mudança de comportamento.

Na sua empresa é a mesma coisa, segundo Robert Sutton e Huggy Rao, “abrir o caminho para a excelência em uma organização depende da persistência em extirpar o comportamento destrutivo.” Se você tapar o sol com a peneira ou decidir que não vale a pena perder seu tempo com uma pequena transgressão, as coisas podem degringolar rapidamente.

Efeitos da contaminação

Um recente estudo da HBR buscou entender a influência de um funcionário toxico no restante da equipe. Após muitas análises e cruzamento de dados, chegaram a uma conclusão:

“Concluímos que funcionários se tornam 37% mais propensos a cometer um desvio de conduta se eles conviverem com um colega com histórico de fraudes. Esse resultado implica que o desvio de conduta tem um fator de multiplicação social – o que significa que cada funcionário que conviver com um Bad Apple vai cometer mais desvios do que o normal.”

Outra pesquisa, realizada por Will Felps, que já havíamos citado no post Liderança na Era Pós-Digital, afirma que ter um único Funcionário Tóxico faz com que a performance de um time seja de 30% a 40% menor do que aquele que não o tem.

Portanto, a contaminação de funcionários tóxicos, além de alastrar más práticas, afeta diretamente os resultados da equipe.

Tipos Tóxicos

Agora que já vimos o prejuízo que podem causar, precisamos descobrir quem são. A boa notícia é que não é nada difícil identificar um Bad Apple: alguns reclamam demais, outros querem disseminar “atalhos” para atingir algum resultado e ainda tem aqueles que drenam a energia de todos ao seu redor com sua grosseria.

Existem inúmeros exemplos, o problema é que alguns deles têm outras qualidades que deixam os gestores cheios de dúvidas e, muitas vezes, de mãos atadas.

Então, vamos fugir do óbvio, alguns funcionários são tão exageradamente tóxicos que sequer merecem uma análise mais profunda. Vamos elencar aqui alguns tipos mais complexos e contraditórios, mas ainda assim, muito comuns:

Talento Tóxico

Em toda equipe de vendas, existe alguém que se destaca. É o top performer, aquele que sempre supera suas metas e recebe inúmeros reconhecimentos. Pode ser uma situação normal e até vantajosa, mas esse cenário também esconde algum perigo:

Tudo começa quando, na cabeça do gestor, o ideal seria buscar no mercado apenas por pessoas com as mesmas características de sua “estrela” e contratar todos que forem possíveis.

Uma pesquisa realizada em Harvard mostra que essa pode ser uma má ideia. Boris Groysberg e seus colegas passaram anos acompanhando alguns top performers de diversas áreas. Em um dos casos, coletaram dados de mais de mil analistas do mercado de ações, entre 1988 e 1996, selecionados exclusivamente por sua performance individual.

Para surpresa de todos, quando essas “estrelas” mudaram de empresa, “seu desempenho despencou em média 20% e só retomaram os níveis antigos cindo anos depois.” Os pesquisadores alegam que grande parte dessa queda aconteceu por uma simples variável estatística, conhecida como regressão à média.

“Com o tempo, as probabilidades em geral alcançam as pessoas que passaram um tempo usufruindo de um desempenho excepcional, que acaba voltando naturalmente aos níveis de desempenho médio dos colegas.”

Robert Sutton e Huggy Rao

Apenas essa possibilidade já seria capaz de fazer aquele gestor, ávido em trazer todos os talentos do setor para sua empresa, pensar duas vezes. Mas, ainda existem outras forças que atuavam contra essas estrelas.

Groysberg descobriu que quando chega um funcionário de fora com status de “salvador da pátria” e salário maior, os funcionários antigos ficam desmoralizados:

“Os analistas seniores muitas vezes começam a procurar emprego em outro lugar e os gestores juniores interpretam a contratação externa como um sinal de que a organização não tem interesse em mobilizar o potencial deles.”

Agora reflita um instante, se um funcionário com regalias pode causar alguns ventos contrários na organização, imagine se, além de estrela, ele também for tóxico? Tempestade à vista! Esse é o real perigo oculto do talento.

Se você trabalhou com vendas alguma vez, deve ter conhecido um vendedor que ninguém suporta, que tem um comportamento totalmente diferente do que a empresa pede ou ainda alguém que sempre está envolvido em “manobras”. Mas, mesmo com todas as evidências, ele ainda está na equipe, contaminando todo mundo, ano após ano, unicamente porque vende mais.

Normalmente isso acontece por insegurança do gestor. Afinal, perder seu melhor vendedor pode significar não entregar suas próprias metas e, ainda, escancara a necessidade de ter que confrontar a sua estrela.

Então, por omissão, ele se torna refém de sua própria cria – uma história digna de Mary Shelley – e lá se vão aqueles 30% ou 40%.

Inteligência Tóxica

A capacidade intelectual dos funcionários é cada vez mais valorizada nas empresas, afinal, ambientes mais complexos exigem soluções mais inteligentes. No entanto, acreditar unicamente nessa qualidade também pode lhe causar problemas.

Quem pode nos ajudar a entender a inteligência tóxica é Ben Horowitz. Em seu livro “O lado difícil das situações difíceis”, ele fala dos três tipos de pessoas muito inteligentes que podem se tornar os piores Bad Apples:

O herege – Nenhuma empresa é perfeita. Todas elas têm dificuldades e, por isso, precisam de funcionários inteligentes e engajados que possam identificar e superar os pontos de melhoria. O problema é que funcionários muito inteligentes podem, em alguns casos, atuar de forma diferente:

“Em vez de identificar pontos fracos e solucioná-los, ele procura defeitos para fazer acusações. Defende a tese de que a empresa, dirigida por um bando de idiotas, é um caso perdido. Quanto mais inteligente é o funcionário, mais destrutivo é esse tipo de comportamento.”

Eu já tive funcionários assim e sei a energia que gastamos para que não contaminassem o restante da equipe. Portanto, fique atento, o herege pode criar questionamentos improdutivos e nada saudáveis na cabeça de todos.

O irresponsável – Algumas pessoas brilhantes são, simplesmente, totalmente indignas de confiança. Horowitz cita o exemplo de um engenheiro que trabalhou com ele e era um verdadeiro gênio. Quando entrou na empresa superou todas as expectativas de produtividade e, consequentemente, foi rapidamente promovido.

Mas logo começou a mudar seu comportamento, no começo faltava no trabalho, depois faltava sem avisar. Quando finalmente aparecia, pedia milhões de desculpas, mas o seu comportamento não mudava. Sua produção também ficou comprometida, ele se tornou disperso e descuidado:

“Eu não entendia tal comportamento. Seu gerente queria demiti-lo, pois a equipe já não podia contar com ele pra nada. Resisti. Acreditava que o gênio ainda estava nele e queria despertá-lo novamente. Isso nunca aconteceu.

Horowitz descobriu que o engenheiro estava envolvido com drogas e outros problemas fora da empresa: “Acabamos tendo de demiti-lo, mas até agora me dói pensar no que ele poderia ter sido. O comportamento irresponsável em geral tem uma causa grave, uma tendência autodestrutiva, como a narco dependência, prestar serviços a outras empresas à noite e assim por diante.”

Lembre-se que toda empresa depende do esforço de uma equipe e, por mais alto que seja o potencial ou a inteligência de uma pessoa, de nada vale se ela não cumprir suas tarefas de modo confiável.

O insolente – Esse tipo específico pode atuar em qualquer nível da organização, mas fica cada vez mais tóxico quando se destaca e cresce na empresa. O comportamento grosseiro e insolente pode ser altamente prejudicial:

“À medida que a empresa cresce, seu maior desafio passa a ser a comunicação. Algumas pessoas têm um estilo tão rude que, quando entram na sala, os outros simplesmente param de falar. Em decorrência, a comunicação entre a equipe se deteriora e a empresa inteira começa pouco a pouco a degenerar.”

Esses problemas são agravados se o grosseirão em questão for inquestionavelmente inteligente e brilhante, caso contrário, ninguém vai dar muito importância para seus ataques.

Portanto, cuide muito bem da comunicação de seu time e valorize o trabalho em equipe antes da inteligência.

Criatividade Tóxica

A criatividade é, sem dúvidas, uma das habilidades mais importantes na Era Pós-digital.  Funcionários capazes de enxergar as coisas de outra maneira são muito requisitados nas empresas e essenciais para lidarmos com as constantes mudanças.

Porém, conforme vimos no post Planejamento e Execução, não podemos nos contentar em ter uma ideia ou escrever um plano. Precisamos fazer as coisas acontecerem, colocar as ideias em prática e executar o planejamento com muita disciplina.

Exatamente nesse ponto que um funcionário criativo pode se transformar em um funcionário tóxico: Os mais criativos tendem a direcionar seus esforços a continuar criando, para eles, a execução não parece tão atraente (Scott Belsky).

Pessoas que adoram ter ideias, mas não executam, podem ser um grande problema nas empresas de hoje, que precisam de muita agilidade e rápida adaptação.

Tomemos como exemplo um gênio da criatividade, que poderia ser um problema em uma organização atual (assim como foi em muitos dos trabalhos comissionados de sua época), Leonardo da Vinci. Sua capacidade de criar era inquestionável, como sabemos, porém, havia outro traço em sua personalidade que não era tão conhecido: ele preferia a concepção à execução.

“Como seu pai e outras pessoas sabiam, Leonardo se distraía mais facilmente com o futuro do que focava no presente. Sempre disposto a saciar sua curiosidade, mas com pouca disposição para amarrar as pontas soltas.

Walter Isaacson

Por isso (e para o nosso azar), foram encontradas tantas obras inacabadas. O Papa Leão X (João de Médici), que contratou Leonardo para um trabalho comissionado por volta de 1513, disse certa vez: “Ai de mim, esse homem jamais terminará coisa alguma, pois já está pensando no fim antes mesmo de começar.”

Agora, vamos combinar, se o nível de criatividade de seu funcionário tóxico for igual ao de Leonardo da Vinci, deixe ele fazer o que quiser, porém, é muito provável que não seja o caso.

Então, tome as medidas necessárias para inibir esse comportamento ou, muito em breve, sua equipe estará cheia de sonhadores, vivendo no mundo das ideias, enquanto sua empresa perde performance a cada dia.

O que fazer?

Como discutimos no post Small Wins e o Behaviorismo, o comportamento humano pode ser aprendido por meio de recompensas e punições. Portanto, antes de qualquer coisa, você deve deixar muito claro o que acontece com funcionários tóxicos.

Cortar o mal pela raiz pode ser muito eficiente, a demissão é um dos caminhos recomendados, afinal, como diz Robert Sutton, para uma equipe prosperar, “eliminar o negativo é mais importante do que valorizar o positivo.

Mas isso não quer dizer que você tem carta branca para sair por aí demitindo pessoas e instaurando um reino de terror para obter o comportamento desejado:

“A maioria das pessoas não nasce má. Muitos colaboradores propensos ao egoísmo, maldade, incompetência, preguiça e trapaça conseguem mudar depois de receber feedback ou coaching. Desse modo, não recomendamos presumir que o mau comportamento é incurável.”

Robert Sutton e Huggy Rao

Outro ponto que você precisa ponderar antes de tomar uma decisão dessas é o que Josh Kaufman chama de Erro de Atribuição – “quando os outros pisam na bola, nós culpamos o caráter deles; quando nós pisamos na bola, atribuímos a situação às circunstâncias“.

Então, quando algo não acontece como o esperado, tente descobrir o máximo que puder sobre as circunstâncias que envolvem o comportamento indesejado. “Com alguma frequência, você descobrirá que se trata de uma questão circunstancial e não uma falha fundamental de caráter.”

Depois disso, se você já tentou outras abordagens e tem certeza de que não está fazendo uma avaliação leviana da situação, não perca mais tempo. Contenha a contaminação antes que seja tarde demais.

 

Referências:  O lado difícil das situações difíceis, Ben Horowitz, 2015. Potencializando a Excelência, Robert Sutton e Huggy Rao, 2014. Leonardo da Vinci, Walter Isaacson, 2017. Manual do CEO, Josh Kaufman,2012. How one bad employee can corrupt a whole team, Harvard Business Review, acesso em 19 de jul de 2018 (link).

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