Empreendedorismo – Mindset e Oportunidade

Mentalidade empreendedora para todos

Recentemente comecei a participar de um programa de mentoria para jovens que querem desenvolver suas startups.  Logo de cara, tive minha primeira constatação: eles têm muito brilho nos olhos, algo que os adultos parecem ter perdido com o tempo, talvez devido às contrariedades e frustrações da vida.

Mas, é certo, também, que apenas a vontade de fazer acontecer não é suficiente. Esses jovens, nitidamente, ainda precisam desenvolver seu lado empreendedor. Foi quando percebi que a definição desse mindset ainda era algo muito abstrato, por isso, decidi me aprofundar no assunto.

Já discutimos aqui no blog algumas preocupações sobre a grande exposição ao tema e, mais recentemente, no post Liderança na Era Pós-Digital, vimos que as organizações estão se tornando verdadeiras federações de empreendedores internos.

Ou seja, temos empreendedores dentro e fora das empresas, criando (ou desejando criar) negócios que impulsionam o progresso da sociedade. Para tentar desvendar esse mindset empreendedor, vamos nos apoiar em Tom Byers, professor de Stanford, que desenvolveu um material muito rico sobre o assunto,  e responder 4 perguntas-chave:

  • O que define um empreendedor?
  • Como empreendedores identificam oportunidades?
  • Quando empreender?
  • O que um empreendedor faz?

O que define um empreendedor?

“Empreendedorismo é uma disciplina sistemática, organizada e rigorosa que pode ser aprendida e dominada

Peter Drucker

Uma definição acadêmica bastante comum trata o empreendedorismo como um estilo de gestão e liderança, que envolve perseguir oportunidades, utilizando recursos da maneira mais eficiente possível.

Empreendedores são pessoas resilientes, com grande autoconhecimento e inteligencia emocional, afinal, precisam estar preparados para superar muitos obstáculos e atacar problemas desafiadores, determinados a encontrar uma solução.

Para conseguir isso, combinam capacidades e habilidades com seus interesses e valores. Dessa forma, são capazes de reconhecer uma mudança ou necessidade da sociedade e responder com uma nova (e melhor) forma de fazer as coisas.

Mesmo que você nunca tenha se envolvido com a abertura de um negócio, deve estar se familiarizando com todas essas descrições. Isso acontece porque, para otimizar as chances de sucesso nessa década, os principais empregadores estão buscando características muito parecidas com as que acabamos de ver. São as pessoas que possuem conhecimento representado graficamente pela letra “T” (ou T-Shaped People).

A parte de cima da letra seria composta por habilidades de um empreendedor, como liderança, design, criatividade, inovação, etc., e ilustra a importância de conhecer um pouco de cada uma delas. Enquanto a outra parte representa o conhecimento profundo de uma área específica, como o domínio de habilidades técnicas e o conhecimento do mercado e ambiente regulatório do setor. A imagem abaixo representa esse modelo:

Esse conjunto de conhecimentos permite que o profissional esteja mais preparado para resolver os problemas e proponha soluções mais assertivas em sua área. São eles que podem fazer uma organização avançar e têm as melhores chances de iniciar um empreendimento de sucesso.

Como você pôde ver, o mindset empreendedor representa muito mais do que a capacidade de criar um negócio associado ao lucro:

  • O empreendedor é um ousado e imaginativo desafiador das metodologias e práticas estabelecidas, que procura constantemente oportunidades de desenvolver novos produtos, tecnologias, processos e organizações. – Baumol, 2002.
  • Empreendedores são indivíduos talentosos que elevam suas capacidades e interesses para perseguir uma oportunidade específica e são capazes de inspirar os outros a lhe ajudar nessa jornada – Byers, 2013.
  • Empreendedores se diferenciam dos demais, devido à sua habilidade de acumular e gerenciar conhecimento e a sua capacidade de mobilizar recursos para alcançar um negócio ou ação social específica. – Kuemmerle, 2002.

Claro que existem muitas definições diferentes da mentalidade empreendedora, porém, acredito que as que foram descritas acima forneçam um bom conceito. Agora, vamos partir para um lado mais prático.

Como identificar uma oportunidade?

“Empreendedorismo não é apenas sobre ganho financeiro. Tem relação com construir um plano de longo prazo que resulte em impacto positivo para a sociedade.”

Tom Byers

Oportunidade é uma conjuntura favorável de circunstâncias com grande chance de sucesso ou progresso. Oportunidades atrativas combinam timing (ou “a hora certa”) com soluções realistas, que possuam boas perspectivas de resolverem problemas.

Para determinar se aquela ideia que você está guardando há algum tempo trata-se de uma oportunidade realmente atrativa, cinco peguntas podem ser feitas:

  1. Hora Certa – A necessidade ou problema existe de fato?
  2. Exequível – O problema pode ser resolvido em um futuro próximo com os recursos disponíveis?
  3. Importante – O problema ou necessidade é realmente relevante para o consumidor?
  4. Lucrativa – O consumidor está disposto e tem condições de pagar pela solução um valor suficientemente alto para gerar lucro para a empresa?
  5. Contexto – Os ambientes regulatórios, tecnológicos e mercadológicos representam uma situação favorável?

Ao responder essas perguntas, conseguimos filtrar muitas das ideias que aparecem a todo momento, porém, isoladamente, uma oportunidade atrativa pode não ser suficiente. Pode parecer contraintuitivo, mas ainda existem outros aspectos que empreendedores devem levar em conta. Uma ótima abordagem é o que Byers chama de “Sweet Spot”.

Se a oportunidade potencial, que você está considerando, combina com seus interesses e habilidades, a chance de sucesso é muito maior. 

Saber identificar uma oportunidade real é um grande passo, resta agora saber onde encontrá-las. Existem duas maneiras mais comuns: uma demanda de mercado (demand pull) ou novas possibilidades trazidas pela tecnologia (technology push). 

  • Demand pull

Nesse tipo de oportunidade, um empreendedor começa identificando uma necessidade ou problema que “grita” por uma solução. Uma tática efetiva para identificá-la é focar em situações onde um consumidor potencial experimenta “dor” (que representa a necessidade pela solução de um problema). Um consumidor que sente dor significante, normalmente, procura por uma solução de alto valor.

  • Technology push

Podemos considerar que esse tipo de oportunidade começa com a solução. O empreendedor possui uma nova tecnologia, que pode ser usada para atender um novo mercado ou ser combinado com outros produtos para aprimorar alguma solução. Porém, é preciso ter cuidado para não confundir uma nova tecnologia com uma solução por si só. Um consumidor, normalmente, não se importa com a tecnologia empregada, desde que ela solucione o seu problema.

O empreendedorismo, portanto, não é sobre ter uma ideia primeiro ou possuir a tecnologia mais avançada, mas sobre criar novos negócios que solucionem problemas da melhor forma.

Abaixo, uma lista em que Byers descreve outras 9 fontes de oportunidades que têm sido amplamente exploradas:

  1. Aumentar o valor de um produto ou serviço
  2. Novas aplicações para tecnologias ou meios já existentes
  3. Criação de mercado de massa
  4. Customização para indivíduos
  5. Aumentar o alcance
  6. Aprimorar a cadeia de suprimentos
  7. Convergência de indústrias
  8. Inovação de processos
  9. Aumentar a escala de uma organização

Certamente não podemos descartar o poder do acaso – fazer descobertas por acidente – que pode nos levar a grandes oportunidades. Outro fator a ser considerado é o histórico pessoal do empreendedor, que é um fator chave no processo de identificação de oportunidades.

  • “Na verdade, até conhecimentos primários, experiência e motivação têm um papel importante na identificação de oportunidades, pessoas diferentes podem não reconhecer ou perceber a mesma oportunidade” – Gregoire and Shepherd, 2012
  • “As pessoas que o empreendedor conhece, as atividades que ele realiza e até os livros, revistas e blogs que lê podem moldar sua sensibilidade de perceber oportunidades” – Ozgen and Baron, 2007

Lembre-se que o sucesso de um empreendimento consiste em muito mais do que uma oportunidade atrativa. Depende de uma ótima proposta de valor, produtos tecnicamente exequíveis, forte capital intelectual, uma vantagem competitiva sustentável, um grande mercado potencial e um modelo de negócios escalável.

Boas oportunidades ou ideias dificilmente são únicas, muitas pessoas poderão reconhecê-las. Poucas delas, no entanto, possuirão paixão e capacidade suficientes para resolver o problema de forma efetiva. No final das contas, é isso que define uma empreitada de sucesso.

Quando Empreender?

“Empreendedorismo é uma corrida contra o tempo para criar valor e reduzir risco.”

Jerry Kaplan

Talvez essa seja uma das inquietações mais importantes na carreira de um empreendedor. A decisão de quando iniciar uma negócio depende de muitas variáveis, o próprio contexto em que está inserido pode ter um efeito importante nessa decisão:

  • “Pessoas cujos colegas ou familiares já empreendem são mais propensos a seguir o mesmo caminho” – Stuart and Ding, 2006
  • Organizações pequenas e jovens tendem a formar mais empreendedores” – Dobrev and Barnett, 2005
  • “Ambientes de trabalho que não são favoráveis à inovação ou falta de incentivo à excelência podem influenciar positivamente o instinto empreendedor de pessoas talentosas e criativas (fora da empresa)” – Lee, 2011
  • “Mudanças econômicas, como maior acesso ao crédito e a investimentos e muitos cases de sucesso também afetam a decisão de se tornar um empreendedor” – Hsu, 2007

Saber quando agir não é algo que se aprende na escola ou no trabalho, trata-se de uma questão pessoal e nunca depende de um fator isolado. A maioria dos empreendedores decide se deve iniciar seu negócio ou não, ponderando 7 fatores:

Possíveis Fatores Positivos

  • Independência – Liberdade de adaptar e utilizar sua própria maneira de trabalhar, flexibilidade, autonomia.
  • Sucesso Financeiro – Riqueza, segurança financeira.
  • Realização pessoalReconhecimento, conquistas, status.
  • Inovação – Criar algo novo
  • Posição/cargo – Ser líder, tradição familiar.

Possíveis Fatores Negativos

  • Risco – Prejuízo financeiro, aversão a perda, fracasso.
  • Esforço e estresse – Nível de esforço exigido, jornada de trabalho maior, ansiedade constante.

Quando colocam esses fatores na balança, avaliam quais têm maior peso, os negativos ou positivos, e tomam sua decisão.  Em outras palavras, pessoas optam pelo empreendedorismo quando acreditam que o potencial de lucro e a independência são maiores do que o esforço e o risco. Para ficar bem didático, podemos traduzir essas informações em um índice, criado por Lévesque e chamado de Atratividade Empreendedora ou AE. 

Para cada fator (Lucro (L), independência (I), esforço (E) e risco (R)) atribuímos uma escala de potencial de 1 a 5, sendo que 1 = baixo e 5 = alto:

AE = (L + I) – (E + R)

Ao determinar o índice de uma ideia, você faz o mesmo com sua situação atual e compara qual tem a maior AE. Vamos a um exemplo bem prático.

Considere um gerente de marketing, que ganhe R$60k por ano em seu emprego atual, e está considerando pedir demissão para abrir um negócio com estimativas de lucro de R$100k no primeiro ano (L). Ele considera que teria muito mais independência (I) se optasse pelo novo negócio, porém, também teria muito mais esforço (E). Quanto ao risco (R), ele considera que são semelhantes, pois, além da incerteza implícita no novo empreendimento, estão acontecendo alguns cortes em sua empresa atual.

Baseado nessas conclusões, ele atribuiu todas as escalas no índice e chegou ao seguinte resultado:

  • Ficar no negócio:  AE = (2 + 2) – (2 + 3) = -1
  • Empreender:  AE = (4 + 5) – (5 + 3) = +1

Nesse exemplo, dentre as opções apresentadas, parece que é um bom momento para optar pelo empreendedorismo. Afinal, a atratividade de se manter no negócio é menor do que a atratividade de empreender.

Claro que, para novos negócios, os resultados são menos conhecidos e, portanto, todos os fatores podem apenas ser estimados, além disso, muitos empreendedores costumam superestimar os benefícios e subestimar os fatores negativos. Portanto, o AE traz apenas um direcionamento.

Para facilitar um pouco mais essa decisão, Byers apresenta mais uma possibilidade: o empreendedor pode usar o seu autoconhecimento e refletir de forma muito honesta para responder as questões abaixo:

  • Você fica confortável ao quebrar as regras e questionar a sabedoria comum?
  • Você está preparado para lidar com a concorrência feroz?
  • Você tem perseverança para começar pequeno e crescer devagar?
  • Você está disposto a “pivotar” rapidamente quando necessário?
  • Você é bom em negociar e tomar decisões?

Se todas as respostas forem positivas, o caminho do empreendedorismo pode estar se abrindo para você. Mas, isso ainda não significa que seu negócio vá ser um sucesso, mantenha sempre os pés no chão e não se vislumbre com os Empreendedores de Palco, lembre-se que a maioria dos negócios ainda dá errado.

O que um empreendedor faz?

“A última medida de um homem não é quando ele se mantém de pé em momentos de conforto e conveniência, mas quando se mantém firme nos momentos de desafio e controvérsia

Martin Luther King Jr.

Empreendedorismo não é coisa fácil. Apenas um terço dos empreendimentos sobrevivem aos primeiros três anos de existência. Portanto, como agentes da mudança, os empreendedores precisam estar preparados para aceitar a falha como um possível fim para sua ideia. Devem evitar ficar apenas no mundo dos sonhos e começar o quanto antes a experimentar, testar e aprender mais sobre seu lado empreendedor:

  • O primeiro passo é identificar a hipótese associada a uma ideia. Então, o empreendedor pode, por exemplo, interagir com clientes potenciais, colegas ou parentes para testá-la. Através desses pequenos experimentos, ele aprende mais sobre a oportunidade e descobre quais mudanças podem ser necessárias para tornar a solução viável – Baer, 2012
  • Empreendedorismo é parente do método científico, empreendedores precisam reunir dados que tenham relação com a hipótese e então, refinar suas ideias baseado em suas descobertas – Sarasvathy e Venkataraman, 2011
  • Existem 3 fatores essenciais para criar um empreendimento de sucesso: comece com boas pessoas, faça algo que as pessoas realmente estejam dispostas a pagar e gaste o menos possível enquanto você valida o mercado e a aceitação de seu produto – Graham, 2005.

Uma vez que o empreendedor identifica o problema e valida as primeiras hipóteses, ele trabalha para desenvolver a solução. Existem muitos caminhos a serem seguidos a partir daí, porém, existe um que é mais comum, dividido em 4 passos:

  1. Desenvolve as habilidades necessárias que ainda não possui.
  2. Identifica uma oportunidade que o atraia e combine com suas habilidades e valores e, assim, apresenta uma solução.
  3. Levanta os recursos necessários para iniciar o negócio, localizando investidores ou parceiros.
  4. Negocia um contrato com sócios, parceiros e investidores para lançar o negócio e dividir a propriedade e a riqueza criada.

Essas etapas são repetidas diversas vezes, como em um ciclo de iteração, para que o empreendedor possa validar seu modelo de negócio, fazer as adaptações necessárias e aprender continuamente.

A maioria das startups falha justamente porque perdem muito tempo e dinheiro até descobrirem que estavam construindo o produto errado. Empresas modernas criam um fluxo constante de produtos e serviços de alto impacto que geram valor e estimulam o crescimento ao trazer novos métodos, tecnologias e ideias para o mercado.

E não para por aí, a rotina de um empreendedor é complexa, estressante e exaustiva. Algumas das atividades principais estão listadas abaixo:

  • Iniciar e operar uma empresa com propósito.
  • Operar dentro do contexto regulatório e empresarial desde o início de sua empresa.
  • Identificar e tangibilizar oportunidades constantemente.
  • Acumular e gerenciar conhecimento e tecnologia.
  • Mobilizar recursos (financeiros, físicos e humanos).
  • Mitigar a incerteza e o risco associado ao desenvolvimento da empresa.
  • Desenvolver uma contribuição disruptiva ou ao menos uma contribuição que tenha algum grau de novidade ou originalidade.
  • Desenvolver e encorajar um grupo colaborativo de pessoas que possuam as habilidades e conhecimentos necessários para o sucesso.

O empreendedorismo é um processo que envolve identificar e reduzir quatro grandes riscos ao longo do tempo: pessoal, tecnológico, mercadológico e financeiro. Isso é conseguido pela combinação correta de uma excelente visão, que alimenta a estratégia e execução.

Mas, embora uma boa visão e um conjunto correto de estratégias sejam importantes, frequentemente, é a execução que diferencia grandes empresas na busca por um modelo de negócios sustentável.

Para finalizar

A conclusão desse post me parece bastante clara. A Era Pós-Digital trouxe desafios de inovação contínua para todas as empresas, sejam startups ou aquelas já consolidadas, por isso, o mindset empreendedor deve ser utilizado em todas as nossas relações com o trabalho.

Certamente, não existe espaço para que todos iniciem novas empresas de sucesso, mas, com a mentalidade correta, nos aproximamos dos nossos propósitos, seja como funcionário, autônomo, investidor, fundador ou, até mesmo, CEO.

Referências: Technology VenturesFrom Idea to Enterprise, Thomas H. Byers, Richard C. Dorf, e Andrew Nelson, 2014. Cultivating the Entrepreneurial MindsetStanford Innovation and Entrepreneurship Certificate Program. Acesso em set. 2017 (link).

Quem leu esse post, acessou também:

2 thoughts on “Empreendedorismo – Mindset e Oportunidade”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *